Corona, humildade e paz

Nestes dias em que ainda lutamos contra o coronavírus são muitos os que já especulam sobre a influência desta crise no futuro. Eu não me atrevo a tal, conquanto haja algo que espero ver sair de tudo isto: uma maior humildade.

Melhor, a plena interiorização de que uns extraordinários desenvolvimento tecnológico, crescimento económico, riqueza material, prolongamento da esperança de vida - tudo isto ou nada disto - são garantes de coisa nenhuma face à inerente fragilidade da vida humana.

O desconhecido está sempre lá, à espreita, tanto na vida do indivíduo como nas vidas que compõem o todo, e nem nos dá a benesse de um aviso, o favor de um sinal.

É a humildade que nos obriga a reconhecer os limites do conhecimento e a duvidar de descrições de uma realidade pintada a preto-e-branco.

O leitor interessado no conflito israelo-palestiniano habituou-se aos relatos sobre vítimas palestinianas mortas por fogo israelita. O leitor atento notou, certamente, que nas últimas semanas não houve um único relato sobre uma baixa palestiniana dessa natureza.

A explicação é simples. Até a liderança cínica de uma organização terrorista como o Hamas teme os efeitos de uma contaminação maciça na sobrepovoada Faixa de Gaza, pelo que decidiu parar com as "populares manifestações espontâneas" de milhares de palestinianos na fronteira de Gaza nas quais, resumidamente, os soldados israelitas são provocados, atacados com granadas e cocktails Molotov e forçados a defenderem-se.

Esta equação é matemática pura: zero ataques contra israelitas na fronteira com Gaza = zero vítimas palestinianas.

Ora, a sequência dos acontecimentos não é dada a conhecer ao leitor, omissão essa que leva a condenar sumariamente Israel e à cristalização de uma narrativa a preto-e-branco. A tal dos bons contra os maus, atores numa história maniqueistamente contada.

Nas últimas semanas desta crise, as organizações terroristas que dominam Gaza não lançaram uma avalanche de mísseis e morteiros contra cidadãos israelitas como há anos é seu costume. Israel não foi forçado a responder para proteger os seus cidadãos e o seu direito a viverem uma vida normal como a que vive a maioria das pessoas no mundo. Infelizmente, neste tipo de confrontos a maior parte dos media não se detém na cadeia factual de causa-efeito.

Olhar atentamente para a realidade em Israel nestes últimos tempos sublinha, mais até do que é costume, quão infundadas são as tentativas para descrever a sociedade israelita de forma homogénea e negativa - ao ponto de usarem, ridiculamente, o termo "apartheid" para a descrever.

Em Israel, o primeiro doente de coronavírus hospitalizado por via do seu estado muito crítico foi um palestiniano, de Jerusalém, condutor de autocarros turísticos, que tinha sido infetado pelo grupo de turistas gregos que conduzia.

Jovem, 38 anos de idade, pai de filhos pequenos.

Toda a sociedade israelita seguiu com ansiedade, dia após dia, o seu estado e a luta heroica da equipa médica pela sua vida.

A sua recuperação e regresso a casa, há apenas alguns dias, foi uma luz de esperança que se acendeu para os israelitas. Judeus e não-judeus.

A própria equipa médica que lhe salvou a vida era composta de israelitas - judeus e árabes palestinianos. Uma só equipa.

A expressão de gratidão e admiração em Israel pelos combatentes da linha da frente do coronavírus, como aqui em Portugal e nos outros países, não distingue judeus de árabes.

Em todos os hospitais israelitas, o staff de médicos e enfermeiros é sempre misto, composto por judeus e palestinianos que trabalham juntos, diariamente, em total harmonia, e, se merecem sempre o nosso respeito e apreço, atualmente ainda mais.

Em todos os hospitais israelitas os pacientes são judeus, árabes muçulmanos, árabes cristãos, drusos e outros. Qualquer outra descrição da realidade em Israel é falsa e lidamos, lamentavelmente, com demasiadas falsidades destas.

A humildade imposta por esta pandemia aproximou inimigos de sempre, fazendo-os compreender que cooperar, atualmente, não é um luxo.

A Autoridade Palestiniana que, no seu jargão, usa a palavra "normalização com Israel" como algo extremamente negativo e sinónimo de quase traição, entendeu que o pragmatismo é a única opção nesta hora. É uma pena, aliás, que não o tenha adotado em dias free of corona.

O leitor pode até ficar surpreendido ao saber que foi entretanto criado um gabinete de crise com Israel por forma a unir esforços para salvar as vidas dos cidadãos de ambos os povos.

Israel enviou uma quantidade significativa de testes e equipamento de protecção às equipas médicas da Autoridade Palestiniana e até para a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, Israel envia diariamente equipamento médico.

Os médicos israelitas também partilham a sua experiência e providenciam formações aos seus colegas palestinianos.

Devido a esta colaboração, Israel até foi brindado com cumprimentos dos oficiais de algumas organizações internacionais - algo bastante raro - que são sempre e tendenciosamente contra Israel.

O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, chegou a falar desta colaboração na passada semana como exemplo encorajador da capacidade de rivais se unirem para lutarem contra um inimigo comum, elogiando Jerusalém e Ramallah.

Mas back to the future, pode tudo isto ter um impacto positivo aí, no nosso futuro?

Gostaria muito de acreditar que sim mas, desgraçadamente, não sou totalmente ingénuo.

Quando se trata dos elementos extremistas na nossa região não creio que esses bêbedos de fanatismo religioso se tornem mais humildes, moderados ou amantes da paz.

O Irão dos Ayatollahs, que perdeu cerca de um milhão dos seus filhos na guerra com o Iraque (1980-1988), não se tornou mais moderado ou pacífico.

O seu líder supremo tem explicado ao povo, nestes dias, que o vírus é americano como se os Estados Unidos não estivessem a passar pela sua própria tragédia com esta pandemia.

O mesmo, creio, acontece com os proxys do Irão, como o Hezbollah, o Hamas ou a Jihad Islâmica.

Os extremistas têm, é verdade, um grande impacto nas nossas vidas. Muito maior do que o seu efetivo peso numérico.

Deverão as maiorias de uma sociedade sucumbir à violência, ao ódio e à intolerância que aqueles disseminam?

Será que este combate conjunto contra um inimigo invisível vai encorajar a maioria dos elementos saudáveis nas nossas sociedades a unirem-se firmemente contra os setores mais extremistas, fanáticos e nacionalistas que ameaçam o nosso bem-estar?

Talvez inimigos e rivais, como nós e os palestinianos, convertam a experiência que descrevi acima em "medidas criadoras de confiança" ou confidence building measures, como os diplomatas gostamos de lhes chamar.

E esta é uma oportunidade a não perder porque o coronavírus veio para nos lembrar, à Humanidade, que é mais o que nos une do que o que nos separa.

Que trabalhar juntos para vencer esta pandemia é a única opção que temos.

Que se os líderes religiosos têm a sua importância nas sociedades, a dos cientistas e dos médicos é indispensável.

Que expressões saudáveis de patriotismo 'local' não são contraditórias à solidariedade humana e à cooperação.

Que urge ter humildade: o vírus não distingue reis e primeiros-ministros de sem-abrigo.

Que a Paz (em maiúscula) não é só uma utopia mas a maneira mais prática de conseguir canalizar energias e orçamentos na investigação científica e, consequentemente, na qualidade das nossas vidas e não na capacidade de eliminá-las pela guerra.

Às vésperas da Páscoa judaica, da Páscoa cristã e do Ramadão, o necessário distanciamento social que nos foi imposto lembra-nos que há muito trabalho a ser feito no que respeita à solidariedade e fraternidade entre indivíduos e nações para que recuperemos a proximidade uns dos outros que merecemos e para a qual fomos feitos, nestas mesmas celebrações, no ano que vem. Sempre.

Embaixador de Israel

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