Centenário da recuperação da independência da Polónia

Mais de mil anos da história do Estado polaco são marcados, em grande parte, pelas relações difíceis com os países vizinhos, resultantes da localização da Polónia na Europa Central. Isso levou às partilhas do nosso país, que duraram 123 anos e que terminaram com o fim da Primeira Guerra Mundial. No dia 11 de novembro, celebrámos o centenário da recuperação da independência da Polónia. A nossa liberdade deve-se, entre outros, a duas personalidades eminentes, cujo desempenho foi determinante para o percurso da história polaca, e em cujas biografias encontramos também um episódio português.

As origens do Estado polaco remontam ao ano 966, em que a Polónia se tornou cristã na consequência do batismo do então soberano polaco. Ao contrário de Portugal, a Polónia sempre tinha muitos vizinhos. Hoje, partilha fronteiras com sete países. Na história turbulenta da Europa, tal localização central determinava tensões, e a Polónia tem sido, repetidamente, um palco de guerras que varreram o nosso país.

No entanto, a Polónia viveu também os períodos de grandeza e prosperidade. No glorioso século XVI para Portugal, quando os navegadores portugueses realizaram a expansão marítima bem-sucedida, a Polónia foi o maior país em termos territoriais na Europa representando uma grande diversidade de nações, culturas e religiões. Atualmente, a Embaixada da Polónia em Portugal está a preparar uma exposição que retrata o poder da Polónia multicultural do século XVI, e que iremos apresentar em breve ao público português.

Após o período de prosperidade no século XVI, surgiram crescentes conflitos de interesses entre a Polónia e os seus vizinhos, cada vez mais fortes militar e economicamente, bem como tensões internas. A Constituição de 3 de maio de 1791, a primeira constituição na Europa e a segunda no mundo (depois da norte-americana), que reformou o Estado de forma moderna e democrática, desempenhou também um papel significativo. A visão moderna representada pela Polónia era considerada pelos seus vizinhos conservadores "perigosa". A partir de 1772, três impérios vizinhos - Prússia, Rússia e Áustria - iniciaram as partilhas da Polónia, reduzindo cada vez mais o seu território, o que resultou no seu aniquilamento em 1795. A Polónia não existia no mapa da Europa durante 123 anos.

A ocupação pelos três impérios diferentes não decorria de forma uniforme; o grau da limitação do direito de polacos de usar a sua língua materna na vida pública variava em função do ocupante e da região. Contudo, mais grave ainda foi a divisão da nação polaca em três partes após o estabelecimento das fronteiras pelas três forças de ocupação, que a partir deste momento vivia em isolamento, submetida às leis e à influência de línguas e tradições dos ocupantes.

Apesar desse isolamento e pressão, os polacos não perderam a sua identidade nacional. Pelo contrário, criaram as Legiões Polacas na Itália, apoiaram Napoleão Bonaparte na luta contra o Império Russo e organizaram duas grandes insurreições nacionais e outras revoltas de menor importância. Até mesmo as crianças realizaram, entre 1901 e 1902, uma greve em Września, opondo-se à germanização das escolas. A língua polaca foi ensinada em casa. Apesar de muitas figuras eminentes polacas terem sido forçadas a deixar o país após as insurreições nacionais, havia durante as partilhas da Polónia um forte florescimento da cultura polaca, tendo sido criadas grandes obras no exterior, por exemplo da autoria de Frédéric Chopin e de poetas Adam Mickiewicz, Juliusz Słowacki e Cyprian Norwid. As mulheres polacas deram também um significativo contributo para a preservação da identidade nacional polaca. O público português pôde familiarizar-se com as conquistas destas heroínas inesquecíveis durante a exposição intitulada As Mulheres da Independência que apresentámos na semana passada na Universidade de Lisboa.

A Primeira Guerra Mundial envolveu os polacos na luta em várias frentes, às vezes uns contra os outros. No entanto, os soldados polacos tinham outro objetivo - a reconstrução das Forças Armadas polacas após o fim da Primeira Guerra Mundial. Em 11 de novembro de 1918, o armistício em Compiègne criou as condições para o renascimento do Estado polaco, que, por um lado, foi precedido por uma ofensiva diplomática e, por outro, pela vontade e o compromisso de toda a nação. Muitas pessoas que viveram nesse período merecem ser homenageadas pela sua extraordinária contribuição individual que permitiu a libertação da Polónia.

Em primeiro plano surge a figura de marechal Józef Piłsudski. Um prisioneiro russo e alemão, que criou nos anos 1914-1918 legiões polacas - um embrião do futuro Exército Polaco. Logo após a declaração da independência, este exército polaco provou ser absolutamente necessário. Na qualidade de chefe de Estado e de comandante-chefe das Forças Armadas polacas, o marechal Józef Piłsudski, em 1919, teve de se opor às forças soviéticas que invadiram a Polónia com a intenção de se expandir na Europa Ocidental. Durante a guerra polaco-bolchevique, que durou até 1921, Piłsudski revelou-se um notável estratega, alcançando em agosto de 1920 uma espetacular vitória numa batalha perto de Varsóvia, também referida como o Milagre no Vístula, e reconhecida por Edgar d'Abernon como uma das 20 mais decisivas batalhas na história do mundo.

Nos primeiros anos depois de recuperar a independência, Piłsudski quis desenvolver o parlamentarismo, contudo, em maio de 1926, face às visíveis lacunas nesse campo, levou a cabo um golpe de Estado, assumindo o controlo sobre o Estado. Mais tarde, em dezembro de 1930, retirou-se da vida pública, reconhecendo a necessidade de deixar as estruturas do Estado se solidificarem sem a sua forte influência individual. Passou nesta altura três meses nos subúrbios do Funchal, na Madeira. Foi precisamente a cidade do Funchal que a Embaixada da Polónia escolheu para homenagear o marechal, no dia exato do centenário da recuperação da independência, a 11 de novembro de 2018. O Embaixador da Polónia, juntamente com a secretária do Governo Regional, Dra. Paula Cabaço, e comunidade polaca local, depositou uma coroa de flores junto ao busto do marechal, perto da catedral, e inaugurou a exposição dedicada a Józef Piłsudski na Casa-Museu Frederico de Freitas, anteriormente apresentada em Lisboa (Museu do Combatente) e em Ericeira.

Outra grande figura, à qual a Polónia hoje presta homenagem, grata pelo seu contributo pessoal para a recuperação da independência, é Ignacy Jan Paderewski, um dos maiores pianistas do mundo no início do século XX. No momento em que surgiu oportunidade de recuperar a independência da Polónia, Paderewski aproveitou toda a sua reputação e estatuto de artista para convencer os considerados políticos, que conhecia pessoalmente, incluindo o presidente norte-americano T.W. Wilson, para apoiarem a ideia de renascimento da Polónia. Após o estabelecimento da Polónia livre, Paderewski suspendeu os seus concertos, e assumiu a função do primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros no novo governo. Juntamente com Roman Dmowski, representou a Polónia numa conferência de paz em Paris e assinou o Tratado de Versalhes em nome de nosso país.

Em 3 de maio de 2018, a Embaixada da Polónia dedicou o Dia Nacional da Polónia a Ignacy J. Paderewski. As celebrações decorreram também fora de Lisboa, no Casino Estoril, a cem metros do Hotel Palácio Estoril, em que Paderewski passou as suas últimas três semanas na Europa, antes de seguir para os EUA, para onde emigrou durante a Segunda Guerra Mundial. A cerimónia dedicada a Paderewski foi honrada pela presença do notável pianista polaco, Leszek Możdżer, que apresentou um recital marcado por uma estética musical diferente - o jazz.

A independência recuperada em novembro de 1918 permitiu iniciar o processo de unificação da sociedade polaca separada e isolada durante as partilhas. Já no período entre guerras, a Polónia alcançou um sucesso económico sem precedentes, que repetimos nos últimos anos. A mobilização de quase toda a nação através do movimento democrático Solidarność (Solidariedade) não só libertou a Polónia da dominação soviética, como também contribuiu significativamente para mudanças políticas em toda a Europa Central e de Leste. Um papel crucial desempenhou também o Papa polaco, João Paulo II, considerado tanto por polacos como por muitas nações no mundo o mais ilustre polaco. Estas mudanças políticas na Europa permitiram que a Polónia aderisse à ONU, OCDE, à OTAN e à UE. Estamos orgulhosos do desenvolvimento e do progresso contínuo da nossa cultura, tal como o demonstraram as obras de quatro laureados polacos com o Prémio Nobel de Literatura, ou o contributo significativo da escola de cinema e música polacas para a cultura mundial.

As celebrações do Centenário da Recuperação da Independência vão ser também visíveis em Lisboa, terminando com um especial toque musical. Este domingo, dia 18 de novembro, no Centro Cultural de Belém vai ser realizado um grande concerto pela Orquestra Metropolitana, acompanhada pelo Coro da Rádio Nacional Polaca e solistas polacos, dirigidos pelo maestro Sebastian Perłowski. Durante o concerto serão apresentados o primeiro concerto para piano, op.11, de Frédéric Chopin e outra magnífica, embora pouco conhecida, obra, a Missa em Fá Maior do príncipe-compositor Józef Michał Poniatowski. Ambas as peças foram criadas no período acima mencionado, durante o qual a Polónia não figurava no mapa da Europa, no entanto, fazem parte da cultura polaca.

Curiosamente, a Missa em Fá Maior foi dedicada a D. Luís I, rei de Portugal. Precisamente esta obra irá concluir simbolicamente o programa musical das comemorações do Centenário da Recuperação da Independência, de mesma forma como as inaugurou, a 11 de novembro de 2017 em Varsóvia, executada na altura pela orquestra sinfónica polaca sob a direção do maestro Pedro Amaral, diretor da Orquestra Metropolitana. Este é um bonito exemplo da cooperação luso-polaca, tal como o patrocínio financeiro garantido ao nosso concerto de 18 de novembro no CCB pelo Grupo Jerónimo Martins, o maior investidor português na Polónia. Na noite de 18 de novembro, olhem, por favor, para outro lado do rio Tejo, pois a estátua de Cristo no Santuário Nacional de Cristo Rei estará iluminada de cores nacionais polacas - branco e vermelho, igualmente como a Embaixada da Polónia.

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