Cem anos depois da tragédia húngara – O que significa Trianon para nós?

Recentemente foi concluída a construção de um monumento evocativo no centro de Budapeste. A sua inauguração, prevista para hoje, foi adiada por causa da pandemia. Assim, o público ainda não teve oportunidade de apreciá-lo na íntegra - vou fazer uma tentativa de o descrever. O novo lugar de memória localiza-se em frente ao Parlamento, simbolicamente construído, portanto, "no coração da Hungria". Trata-se de um memorial sem igual, singular tanto na sua concepção como no seu simbolismo. O visitante é levado a descer ao subsolo por um longo fosso, ladeado por paredes revestidas de pedra escura. Nessas paredes estão gravadas, em húngaro, os nomes de 12 mil localidades. Cidades, vilas e aldeias, grandes e pequenas - uma parte delas localizada na Hungria de hoje, a outra parte nos países vizinhos. Descendo pela rampa estreita de cem metros de cumprimento, chegamos a um bloco de granito preto rachado em vários pedaços e com uma chama eterna no seu interior. Um lugar de atmosfera pesada a lembrar uma câmara funerária. O bloco de granito, apesar de ostentar sete fendas abertas, preserva a sua integridade. E no seu centro, como um memento eterno, guarda a chama da vida. Dando a volta, começamos a regressar pelo mesmo caminho, desta vez a subir. A vista que se nos apresenta intensifica o impacto quando, ao fim do corredor, à saída da câmara funerária simbólica, avistamos o edifício do Parlamento com a sua cúpula. Dois símbolos do Estado húngaro milenar: atrás de nós, aquele condenado à devastação, à nossa frente aquele que não desiste. À medida que vamos chegando ao exterior, à nossa volta luz e espaço vão aumentando. O sentimento que invade o visitante evoca uma espécie de ressurreição. A ressurreição da nação húngara, da Hungria. A mensagem será decifrável para todos os húngaros, mas talvez para o visitante estrangeiro também revele algo da tragédia húngara que se cumpriu neste dia, cem anos atrás.

Foi em 4 de Junho de 1920, a partir das 4 da tarde, que os representantes do governo húngaro e dos vencedores da Primeira Guerra Mundial assinaram, no Palácio Trianon de Versailles, o tratado de paz que ditou o desmembramento da Hungria e do povo húngaro. Segundo testemunhos da altura, no momentos da assinatura, na Hungria dobraram os sinos, as bandeiras foram colocadas a meia haste, tocaram as sirenes, as lojas fecharam e, por dez minutos, parou o trânsito e a vida em geral. O país vestiu-se de luto - não por dez minutos, mas por longas décadas. A dor provocada pela perda ainda hoje se faz sentir.

São poucas as questões sobre as quais os húngaros, independentemente da sua visão política, partilhem um consenso tão alargado como sobre a questão do Tratado de Trianon: trata-se de uma das nossas maiores tragédias nacionais. Para lembrá-lo, celebramos, desde 2010, o Dia da Coesão Nacional. O novo monumento, por sua vez, chama-se Memorial da Coesão Nacional, procurando transcender o trauma de Trianon com a sua simbologia da unidade inquebrantável e da força vital do povo húngaro.

Fora da Hungria, são poucos que intuem ou entendem que esta amputação ocorrida em 1920 continua uma ferida que não se cicatriza e que o povo húngaro ainda hoje sente a dor dos seus membros-fantasma. Ao mesmo tempo, temos que perceber também que aquilo que para os húngaros significa uma perda trágica, uma injustiça histórica, para a maioria dos nossos vizinhos constitui uma vitória ou, inclusive, um acto de justiça.

O Tratado de Trianon, os seus antecedentes e consequências foram objecto de imensas análises, feitas de perspectivas diversas. Não me aventuro sequer a fazer um resumo de toda essa literatura. No presente artigo, limito-me a mostrar o significado dessa catástrofe para os húngaros e a forma de a ultrapassarmos.

Entre os nomes das 12 mil localidades, está o de Déva, que fica no sul da Transilvânia. Terra dos meus avôs, hoje pertence à Roménia. Foi só há quatro anos que a visitei pela primeira vez, levando comigo os meus filhos. Foi, para mim, uma viagem apaziguadora. Tal como a minha, a maior parte das famílias húngaras tem algum vínculo à Hungria histórica e todos temos formas diferentes de nos relacionarmos com isso. O tempo, a crescente abertura, a permeabilidade das fronteiras e a integração europeia facilitaram a aceitação e compreensão para todos nós.

É de amplo conhecimento a implacabilidade com que os derrotados foram tratados no Sistema de Paz de Versailles que pôs termo à Primeira Guerra Mundial. O tratado húngaro, na sua brutalidade, destacou-se entre todos. Em Trianon, fragmentou-se um dos Estados mais antigos da Europa e o povo húngaro. Os nomes das 12 mil localidades já mencionados correspondem à totalidade das localidades da Hungria histórica. País que desde a sua fundação no ano 1000 foi enfrentando muitas vicissitudes da História na Bacia dos Cárpatos. Devido, também, a essas vicissitudes, a Hungria entrou no século XX como um país multiétnico, onde além da maioria húngara, viviam centenas de milhares e até milhões de alemães, romenos, eslovacos, sérvios, rutenos, croatas, juntamente com outras etnias. Após Trianon, a área da Hungria reduziu-se de 325 mil quilómetros quadrados a 93 mil, os "restantes" 230 mil foram entregues pelos vencedores aos países vizinhos. Duma população de 18 milhões, restaram 7,5. Com base no tratado de paz e evocando o princípio da autodeterminação (rejeitando a proposta húngara que pedia a realização de referendos), mais de 3 milhões de pessoas de língua materna húngara ficaram sob a soberania de Estados estrangeiros, não raras vezes nas próprias zonas fronteiriças. São, ainda hoje, números avassaladores. Ao mesmo tempo, cerca de 7 milhões de pessoas de outras línguas maternas (que não a húngara) passaram a viver nos países vizinhos, juntando-se assim à sua nação-mãe. No total, um terço dos húngaros ficaram sob domínio estrangeiro. Cerca de 15 % deles fugiram, na sequência do Tratado, para a Hungria - no decorrer de alguns anos deslocaram-se 420 a 450 mil. Inúmeras famílias foram separadas assim, e muitos foram os que durante anos ou até décadas não puderam voltar a ver os seus familiares. Os que ficaram na sua terra natal, passaram a viver como minoria, em circunstâncias muitas vezes difíceis.

Os danos não se mediram apenas em áreas e recursos económicos. As perdas culturais foram, pelo menos, tão graves e dolorosas. Para além de milhões de húngaros passarem a ser, de repente, estrangeiros, foi também difícil assimilar a perda de localidades de referência da história e cultura húngaras. Cidades onde reis nossos nasceram, igrejas onde príncipes e soberanos nossos jazem, campos de batalha onde os nossos exércitos venceram ou foram derrotados, aldeias onde poetas, escritores ou artistas nossos nasceram -ficaram, de um dia para o outro, no estrangeiro. O território, a economia, a rede de transportes, a administração pública e o tecido cultural e social do país foram dilacerados para sempre.

A Segunda Guerra Mundial e o consequente domínio estrangeiro da região da Europa Central deveram-se, em grande medida, ao tratado de paz de 1919-1920 que plantou sementes de conflitos nunca antes vistos na região.Tragicamente, virou os povos da Europa Central uns contra os outros, povos que ao longo da sua história atribulada tinham todos sido vítimas das ambições conquistadoras das grandes potências circunvizinhas. Um desenvolvimento triste, tendo em conta que ao longo da história estes povos tinham travado muito menos guerras entre si do que os seus pares europeus, muitas vezes aliando-se para defenderem, juntos, a sua independência.

Ultrapassar e superar estas linhas divisórias que fragmentaram a nossa região tem sido a nossa tarefa, a exigir muita dedicação e empenho.

A memória histórica é importante, temos que saber quem somos e donde viemos. Os aniversários históricos são importantes, mas para construir um futuro partilhado não bastam. Ao longo destes cem anos, a Hungria, além de sofrer perdas enormes devido a um tratado injusto, ficou, também, isolada no contexto da sua região, rodeada de desconfiança e sem capacidade de estabelecer laços de cooperação. Mas estabelecer relações de confiança com os países vizinhos é essencial para nós, precisamos dessa colaboração para construir um futuro partilhado. A Hungria tem feito um longo e perseverante trabalho de criação de confiança e de relações, no qual felizmente pudemos contar, na maior parte das vezes, com a receptividade dos nossos vizinhos. Esse trabalho ainda não terminou, mas ao longo dos últimos anos a Hungria tem conseguido - independentemente das experiências históricas - uma estreita colaboração virada para o futuro com, por exemplo, a Eslováquia, no quadro do Grupo V4, ou com a Sérvia e a Croácia. A Sérvia tornou-se, aliás, o nosso principal parceiro nos Balcãs Ocidentais e a cooperação entre a Hungria e a Eslováquia tem sido uma história de sucesso. Os países vizinhos são os nossos parceiros comerciais mais importantes, o processo de estreitamento de relações é contínuo. As ligações rodoviárias e energéticas são mais numerosas e estreitas que nunca. E ainda estamos só no início. "A decisão de Trianon para nós é um dos momentos mais tristes da história, mas isso não implica que tenhamos que ter más relações" - disse nestes dias o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria após uma reunião bilateral com o seu homólogo romeno em Bucareste.

Percebemos que a decisão de Trianon ultimada há cem anos tem significados diferentes para os nossos vizinhos e para nós. Alicerçamos as nossas relações com os países vizinhos na base de respeito mútuo e olhamos para as comunidades húngaras lá residentes como um recurso que nos une. Olhamos para a frente e procuramos estabelecer excelentes relações bilaterais com todos, construindo, em conjunto, uma Europa Central renovada e forte que será um pilar robusto e estável da União Europeia.

Embaixador da Hungria em Portugal

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