Cátedra Cascais Interartes

Nesse já distante ano de 1981, havia eu concluído a licenciatura e ingressado no curso de mestrado, quando decidi partilhar o que pensava fazer na minha dissertação com uma colega mais experiente. Ao pronunciar o nome do poeta que tinha em mente, ela olhou-me com uma expressão de aterrada perplexidade, em tudo idêntica à dos boiardos, na primeira parte de Ivan, o Terrível, ao ouvirem os desígnios políticos do jovem czar, e exclamou: Não podes! Fulano de tal já fez a tese sobre ele.

Alguns anos passaram, e preparava-me para avançar com a investigação para o doutoramento, quando citei, a quem de direito, o nome do poeta que desejava investigar. O meu interlocutor olhou-me com uma expressão censória, em tudo idêntica à do professor da instrução primária quando algum de nós se atrasava a erguer-se quando ele entrava na sala da aula, e exclamou: Não pode! Fulana de tal já fez a tese sobre ele.

A ideia, então prevalecente em certos redutos académicos, segundo a qual a universidade não era propriamente um solo de liberdade e de inovação, mas antes um conjunto de courelas, denunciava uma ideia desta instituição em tudo contrária à sua etimologia latina - "universalidade, totalidade, conjunto", Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Indiciava, além disso, a prevalência de pequenos poderes não raro sustentados por concepções arcaicas, dinásticas até.

Estas memórias de remotas circunstâncias e (gosto eu de pensar), por certo, bem distantes dos tempos que correm, determinaram a forma como acolhi o convite de Salvato Telles de Menezes, presidente da Fundação D. Luís I, no sentido de conceber e coordenar um espaço de reflexão em torno de escritores ligados às memórias de Cascais e cujos percursos estéticos denunciaram reiterados encontros com outras formas de expressão artística: Branquinho da Fonseca, David Mourão-Ferreira, Herberto Helder e Ruben A., e ainda Ana Hatherly, João Gaspar Simões, Maria Archer ou Mário-Henrique Leiria, para nos confinarmos àqueles que já partiram.

Com as reminiscências bem presentes dos episódios que referi, era, para mim, claro que esse deveria ser um espaço de liberdade e que não poderia estar dependente de grupos ou persuasões, com os seus tiques comportamentais, como os dos praticantes da trivialização da experiência literária que Paul Ricoeur definiu como hermenêutica da suspeição. Afinal, todos eles pretendem a colonização do objecto.

E foi assim que nasceu o projecto designado Cátedra Cascais Interartes, pois nesta lacónica expressão é algo de ético e de hermenêutico que se insinua.

É nesse espaço entre, que entendemos tanto o impulso que nos motivou, como a nossa acção; uma prática metaxológica, como a tem vindo a teorizar o filósofo irlandês William Desmond.

Os olhares que iremos suscitar sobre os escritores e poetas acima mencionados, e sobre outros, nomeadamente ainda vivos, decorrem dessa postura e de um exercício crítico marcado pela abertura, pela consciência de quão fértil a porosidade é; um exercício que, porque se pretende de liberdade, e que não se substitui às reflexões existentes, ou em curso.

Não se assustem, portanto, os arcaicos detentores de courelas. Com efeito, este é um projecto de hospitalidade que, exactamente por o ser, recusa a guetificação do literário, do poético. E este traço evidencia-se na vocação plurivocal, explícita na sua natureza e missão. Desde logo, pela polifonia de iniciativas a promover: do convencional horizonte académico, às de divulgação que tanto se podem inscrever no domínio do chamado turismo cultural, como no contacto com as camadas mais jovens das escolas do concelho, ou de motivação e formação dos seus docentes. Iniciativas que passarão também pela existência de incentivos à investigação, como bolsas ou prémios ensaísticos, e, não menos displicente, pela criação de uma revista bilingue online, delineada segundo os necessários e exigíveis critérios científicos, que permitirá ultrapassar as fronteiras físicas do concelho e, assim esperamos, nacionais. A interacção com a CPLP e com a UCCLA suscitará uma abertura mais ampla neste sentido. Polifonia de acções e de públicos, de destinatários, portanto.

Foi, desde logo, motivo de júbilo, para nós, a adesão obtida quer por parte dos professores universitários que aceitaram integrar o conselho científico da Cátedra (Abel Barros Baptista, António M. Feijó, Antonio Sáez-Delgado, António Sousa Ribeiro, Isabel Pires de Lima, João Pedro d"Alvarenga, José Tolentino Mendonça, Mário Vieira de Carvalho, Miguel Tamen, Pedro Ferré, Rosa Maria Martelo) quer por parte das personalidades que acederam ser seus consultores internacionais (Antonio Franco Dominguez, director do Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo, Haden Guest, director do Harvard Film Archive, Howard Wolf, professor emérito da Buffalo University, John Aiken, professor emérito da Slade School of Fine Art, István Rákóczi, professor agregado da Universidade de Budapeste, Viorica Patea, professora catedrática da Universidade de Salamanca, e Vítor K. Mendes, professor associado da Universidade de Dartmouth).

O perfil dos intervenientes, do conselho científico aos consultores, dos curadores aos investigadores que nos irão ajudar a desvendar a riqueza de um percurso analítico concebido nesse espaço entre, não só é um dos traços mais relevantes desta Cátedra, como estímulo para quem compete pô-la em marcha.

Embora a ele não se circunscrevendo, a Cátedra inscreve-se, por fim, no projecto cultural, definido por uma evidente coerência e pelo cosmopolitismo estético, que tem vindo a caracterizar a actividade da Fundação D. Luís I, e que se reflecte no conceito inovador do Bairro dos Museus, com o qual iremos interagir.

Estejam, portanto, atentos aos sinais que, em breve, começarão a chegar daquela vila que recusa ser cidade.

Professor Catedrático de Estudos Anglo--Americanos da Universidade Aberta - CEAUL

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