"Assim não vamos lá"

Caminhar por Buenos Aires numa manhã limpa e fria, um pouco antes das livrarias da Av. Corrientes abrirem, é uma boa oportunidade para perceber como pequenos passos não nos servem de nada. Não esses. Caso as pernas o permitam, chegaremos ao Obelisco sem dificuldade. Mas aqueles que dizem respeito ao modelo de desenvolvimento urbano. Assim não vamos lá.

Há evidências demasiado significativas para considerarmos as cidades, especialmente as megacidades que temos criado por todo o mundo nas últimas décadas, como o laboratório principal para políticas de sustentabilidade ambiental. Principal porque são também elas que detêm a fatia maior de riscos e oportunidades nesta matéria.

Buenos Aires ajuda-nos a perceber isto de forma particularmente evidente e intensa. Os bairros urbanos são muito diferentes. O cheiro de Abasto - este de onde se parte pela Av. Corrientes em direção ao Obelisco - é diferente do bairro de Palermo. Mistura-se com os escapes dos milhares de carros e "colectivos" - os autocarros na designação local - parados no trânsito de uma avenida de cinco faixas apenas num sentido. Palermo acolhe as classes média e alta, disfarçando com as árvores e as ruas mais calmas, a velocidade das suas gentes. Mas a cidade não se pode tomar apenas por uma parte. E esta, se lhe acrescentarmos o que já lhe pertence no contínuo urbano com a cintura que a rodeia, ultrapassa os 12 milhões de habitantes.

O movimento diário, ampliado em algumas destas que são das mais largas avenidas urbanas do mundo, assemelha-se à circulação sanguínea. Mas se quisermos explorar ao limite esta imagem, então não exageramos ao dizer que se trata de uma circulação lenta, espessa, com pouco espaço para respirar: à beira do enfarte.

A elite local, na recente zona regenerada do porto, está encostada ao rio, esmagada por uma cidade que todos os dias se move em ondas na sua direção. Que se aproxima do rio vindo de todas as periferias. Massas ondulantes em carros gastos e "colectivos". Repetidas. Quentes. Rodadas. De San Martin, na periferia "Porteña", apenas a 10 km do centro, a onda pode demorar horas percorrendo autoestradas que rasgam o coração da cidade, ou a avenida de 12 faixas depois dos Bosques de Palermo. Ondas ritmadas, mas lentas, que se arrastam com ruído e emissões de carbono.

Os pequenos passos na transformação da mobilidade urbana, a gradual alteração dos modos de transporte, as pontuais melhorias em alguns indicadores de qualidade e sustentabilidade ambiental nas cidades não são suficientes. A cidade vive. As pessoas sobrevivem. O planeta - em bom espanhol portenho - "pues nada...", um dia desiste.

Pró-reitor da Universidade de Aveiro

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