"As ruas da cidade também se escrevem"

As ruas de Stavanger escorregam até ao fjord. O frio Norueguês, aquecido pelas madeiras coloridas do revestimento das casas, acompanha-nos até algumas das mais surpreendentes fachadas de arte urbana. Acontece ali o NUART, um dos muitos festivais que anualmente vão alterando o espaço físico de várias cidades europeias.

Confesso que teria olhado com menos interesse, ou sujeito a menos deambulações, não fossem as surpresas "ao virar da esquina". A pergunta pode ser colocada: serve para alguma coisa a arte urbana? Muitos insistem que não. Aliás, como toda a arte, dirão alguns. Se a arte servir para alguma coisa, então já não serve como arte. No entanto, aceitando como legítima esta pretensão, ela não deixa de ter consequências. E esta tem uma virtude: obriga a olhar. Uma parede vazia diz apenas uma coisa. Uma parede intervencionada tem múltiplas leituras.

Também as cidades acumulam sucessivas vagas de construção, de leituras, de identidades e de tensões. A capacidade de provocar um estímulo inesperado que faça refletir sobre a relação das pessoas com o espaço físico é, em última análise, uma das capacidades ao dispor da designada arte urbana.

Escrever as ruas, pintar novas paisagens, rasgar janelas em horizontes de betão, são alguns dos instrumentos disponíveis. Uniformizá-la não é possível, dado o seu caracter profundamente heterodoxo. A sua diversidade, tanto na forma como no conteúdo, é precisamente aquilo que mais tem contribuído para o seu crescente interesse e divulgação. A sua disponibilidade - de acesso livre - e natureza efémera torna mais complexa uma tentativa de a definir ou de lhe atribuir um significado único e singular. No entanto, a cultura de resistência, de intervenção urbana e de representação das margens e das periferias através de meios inusitados, nas paredes e nas ruas das cidades, é precisamente o seu lugar de pertença.

A arte urbana tornou-se um dos principais elementos da cultura visual contemporânea. Não são as grandes capitais a demonstrá-lo, apesar da escala e das oportunidades que criam. Estarreja e o ESTAU, ou a Covilhã com o Wool, são disso exemplo. Não apenas Lisboa. Stavanger, onde o NUART acorda as paredes da cidade, e não Oslo.

A arte urbana é, de facto, uma ferramenta poderosa de transformação e de apropriação do espaço público e instrumento de mediação entre a comunidade e o território. O debate gerado pela arte urbana coloca em confronto diferentes perspectivas sobre o espaço público e, em particular, abre a discussão sobre os diferentes "direitos à cidade".

Pró-reitor da Universidade de Aveiro