As memórias do Império

A Praça do Império, em Belém, tem 32 brasões feitos em buxo e flores que vêm da época salazarista e que representam Portugal e as suas ex-colónias. Esses brasões já tinham sido tema de debate em 2014 e voltam agora a sê-lo porque a Câmara Municipal de Lisboa quer substituí-los por um outro arranjo vegetal no qual não constam referências às colónias.

Em favor da substituição, os vereadores do PS, que têm maioria na Câmara, elaboraram uma série de argumentos, alguns deles razoáveis, outros de mera circunstância e outros, ainda, de pura má-fé. Vou focar-me apenas nos que foram verbalizados por Duarte Cordeiro, o vice-presidente da câmara, porque eles são muito representativos de uma certa forma de pensar. Segundo os jornais, Cordeiro terá dito que os brasões "estão datados e até podem ser ofensivos". Esta frase incomoda, pelo que tem subjacente. Claro que os brasões estão datados. O castelo de Guimarães está datado, assim como tudo aquilo que um país com uma longuíssima história decidiu conservar. São essas e outras coisas datadas que lhe dão a profundidade da memória e uma identidade no decurso do tempo. Se fizéssemos o aggiornamento de tudo o que é antigo e datado, se anulássemos tudo aquilo de que não gostamos e o puséssemos de acordo com os padrões estéticos e morais da nossa contemporaneidade, Portugal seria uma espécie de Dubai da Europa, um mostruário de modernices sem antiguidade nem raízes.

Os brasões estão datados, e ainda bem que assim é. São testemunhos de um tempo. Mas Duarte Cordeiro acrescenta que, para além de "datados," eles podem ser "ofensivos". Ofensivos para quem e porquê? Não nos é dito mas subentende-se que será para os anti-salazaristas ou para os naturais das ex-colónias.

No século XX houve em Portugal uma ditadura que durou quatro décadas. Há milhões de vestígios dessa época: fotografias, edifícios, monumentos, obras públicas, obras de arte, numa palavra, há tudo aquilo que é humano. Essas coisas não são para apagar, apenas porque existiu um ditador chamado Salazar, de que não gostamos. Pode-se detestar Salazar e o que ele significa - como é o meu caso - e, ainda assim, preservar as memórias do seu tempo. Para lá das nossas emoções e da nossa parcialidade, gostemos ou não do que essas coisas representam, não podemos esquecer que elas fazem parte da nossa história.

E outro tanto se passa com o que diz respeito às ex-colónias. Portugal teve, numa determinada fase da sua existência como país, um império colonial e um espírito imperial. Tudo isso existiu e, depois, deixou de existir, sem que seja motivo de vergonha nem de ofensa para ninguém. Não projectemos as nossas concepções e avaliações modernas sobre os tempos idos, e sobre as pessoas que neles viveram, porque o anacronismo é o maior pecado que se pode fazer quando se lida com o passado. O império colonial português teve os seus heróis e os seus cobardes, as suas boas e más intenções, a exploração dos outros e o altruísmo, as almas grandiosas e os espíritos mesquinhos, teve tudo o que é humano, o bom e o mau, como qualquer outro domínio territorial de qualquer outro povo que tenha vivido sob a luz do sol, desde que a espécie humana existe. Só não perceberá isto quem tiver uma visão estreita e circunstancial da história.

É claro que os vereadores do PS não parecem estar interessados em preservar uma visão histórica da Praça do Império. Parecem apenas interessados em apagar uma determinada memória, substituindo-a por outra, supostamente mais pura ou mais asséptica, por razões que serão estritamente ideológicas e determinadas por uma subordinação vesga e míope aos ditames do politicamente correcto. Eu lamento que assim seja. Neste caso concreto, os vereadores do PSD, CDS e PCP, que votaram contra a supressão dos brasões coloniais têm, ainda que por razões diferentes, toda a razão.

Historiador e romancista

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