As aparências iludem

Não seria fantástico se de facto nos déssemos bem com a Rússia?" questionava em agosto o candidato Trump aos americanos que enchiam os seus comícios. No início de 2017, a duas semanas da sua tomada de posse como presidente, e dias depois da expulsão de 35 funcionários russos dos EUA, a resposta a essa interrogação é mais pertinente do que nunca. Aparentemente, há sinais de que ela será positiva, incluindo a decisão russa de não retaliar com sanções idênticas. Mas vai mesmo ser assim?

Quando em 2009 chegou à Casa Branca, esse era também o desejo público de Obama. Todavia, não só depressa se tornou evidente a incompatibilidade pessoal entre si e o líder russo como que as suas estratégias eram inconciliáveis. Obama queria restaurar a paz americana e a ordem liberal, muito abaladas pela crise do Iraque e a política externa de Bush. Putin queria avançar uma agenda revisionista que confirmasse que a Rússia continuava a ser uma potência mundial. A estratégia americana assentava no soft power e no multilateralismo, a russa implicava o recurso à guerra híbrida e à lógica das esferas de influência. A primeira legitimava-se nos valores, a segunda no poder.

Para compreender o atual estado das relações entre as duas potências é ainda necessário contextualizá-las na dinâmica global. Elas não só não lhe são imunes como têm refletido as suas principais tendências evolutivas. Aliás, não por acaso, foi a anexação da Crimeia em 2014 a confirmar à opinião pública ocidental que o otimismo pós--histórico e a crença na paz kantiana não impediriam o regresso da geopolítica e do mundo histórico. Das esferas de poder com o separatismo no leste da Ucrânia à desintegração das fronteiras por efeito do terrorismo no médio oriente, passando pelas transformações tecnológicas materializadas nos desafios da cibersegurança, as recentes dinâmicas internacionais têm dominado a agenda americano-russa. O tema mais recente? O apoio do Kremlin aos diversos movimentos populistas na Europa e, claro, à eleição do próprio Trump.

Em comum Putin e Trump têm o estilo e o tom, narrativas estratégicas defensivas e soberanistas, e o poder como critério essencial da política. Pode-se esperar, por isso, nos próximos tempos, uma moderação nas relações bilaterais. E, para lá das declarações amorosas no tweeter, o primeiro sinal dessa moderação será o abandono relativo das sanções referentes à Ucrânia. Não obstante, ambos partilham igualmente o desejo de tornar os seus países "grandes de novo". E aqui tudo se complica: a médio prazo, na sua realização prática, este objetivo é mutuamente incompatível. A lógica da competição pelo poder é a de um jogo de soma zero (só pode haver um vencedor), e nem Putin nem Trump suportam ficar em segundo lugar.

Professora e Investigadora do IEP - Universidade Católica

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