Árabes versus Berberes

O "buzz" da semana vem do Golfo e aborda um diferendo "com barbas" e, por isso mesmo, continuamente transferido e projectado nas gerações mais novas.

No "Twitter" um grupo de jovens cidadãos árabes-arabófonos decidiu divulgar um novo mapa do Mundo Árabe, no qual exclui os 5 países magrebinos, mais o Egipto. São classificados de berberes, os 5 e o Egipto de Copta! O intuito é de "corrigir a História". Pois do lado que toca aos Homens-Livres, na tradução literal de Amazigh, como preferem ser chamados os vulgo berberes, é um favor que lhes fazem, pois a particularidade é de glorificarem Deus por terem sido islamizados, mas verem sempre no prosélito árabe que os islamizou, o colonizador, o intruso que lhes roubou a terra e quem se impôs politicamente.

Efectivamente o Grande Magrebe é esmagadoramente amazigh, mas as estatísticas dizem o contrário, já que o Poder Político é árabe. Uma estória que se passou durante a Primavera Árabe líbia, foi a liberdade de se poder voltar a falar as línguas autóctones em vez do árabe, imposto pelo Regime de Kadhafi. Ou seja, quem falasse outra língua ou dialecto sem ser o árabe, ia parar à cadeia! À medida que o país se vai libertando de Leste para Oeste, as estações de rádio locais passaram a emitir nas línguas e dialectos locais e a passar/difundir músicas e folclore proibido há 40 anos.

Há 3 anos, precisamente durante o Verão de 2017, enquanto esperava o eléctrico na Avenue de France, em Rabat-Agdal traduziram-me a conversa que 2 patriarcas de cabelos brancos estavam a ter no banco ao lado. O motivo era de chacota entre ambos, dizendo um para o outro, "Finalmente estamos em segurança, foram-se todos embora", em referência aos árabes que tinham saído da Capital marroquina para férias.

Esta adesão de alguma juventude macaquista, já que tudo é motivo para uma campanha e as novas tecnologias têm o condão de nos meter a todos no Centro, já que quem vive em ditadura também se coloca no Centro ao ritmo dos "tweets" e dos "likes", também vê a anedota em comentários de cariz, anedóticos, lá está, como por exemplo, "Os árabes são uma raça suprema e o arabismo é uma raça, não apenas uma língua", ou "Árabes só na Península Arábica, árabes são de países ricos, não de refugiados". As respostas, na linha do favor que estes árabes estão a fazer a todos/as os Homens e Mulheres Livres do Magrebe, são de desprezo, agradecimento e de afirmação africana também, já que actualmente um argelino, tunisino ou marroquino não se assume só como africano durante o Campeonato (Taça) das Nações Africanas-CAN. Como registo prosaico sobre esta realidade multicultural, o Preâmbulo da Nova Constituição Marroquina de 2011, foi alvo à época de comentário irónico, certamente por Súbdito alinhado com o M-20Fev., num dos jornais-panfleto clandestinos que apareceram no momento Primavera Árabe e que foi o seguinte:

O Preâmbulo da Constituição de 2011, releva das raízes da Identidade Nacional marroquina ser "forjada na convergência das componentes arabo-islâmica, amazigh, saharo-hassania, africana, andaluz, hebraica e mediterrânica". Comentário, "que pena, bem poderia também entregar pizzas ao domicilio"!

Já na Argélia, a Primavera Árabe de 2011 não teve tanto relevo como nos vizinhos, já que a Primavera Negra, na Kabilya já tinha acontecido em 2001, sendo que o principal ganho da revolta foi precisamente a consagração do Tamazight como Língua Oficial, apenas conseguido pelos berberes marroquinos 10 anos depois. Língua é Política e este mapa é apresentado como quem deita uma estátua ao chão, já que o Mundo Islâmico é parco em símbolos tridimensionais com forma humana e de outras "vidas". Os chineses que o digam, que a cada restaurante que abrem por esse outro Mundo, o Islâmico, têm sempre problemas ao insistirem em sinalizar a entrada do local com duas estátuas de leão! São sempre foco de contestação pelos mais ortodoxos e o 1º sinal de que o negócio em breve vai fechar.

AGENDA MENA (Middle East & North Africa)

- Notícia importante também desta semana, para a Nação Islâmica, é a decisão de a Arábia Saudita ter autorizado a Peregrinação Menor, a Umrah, apenas a sauditas e estrangeiros residentes no Reino, excluindo assim os cerca de 2 milhões de peregrinos anuais, que este ano terá lugar entre 29 de Julho e 03 de Agosto;

- Marrocos finalmente desconfina neste 25 de Junho, após 3 meses de esforço, sem no entanto permitir o "festival de casamentos" que geralmente se sucedem ao Ramadão. "Covid oblige"!

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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