Adriano Moreira e o Cardeal Humberto Medeiros de Boston - O caso de Timor

Genuinamente preocupado com o sofrimento do povo timorense, depois da ocupação indonésia, ocupação devida à estupidez e incompetência política dos esquerdistas portugueses, a começar pelos militares e a acabar pelos comunistas, com a conivência dos socialistas, (os quais queriam impor a Timor independente um regime comunista, sistema visivelmente contrário às tradições culturais e políticas do povo maubere), o Professor Adriano Moreira, consciente como ninguém do significado político e cultural das antigas províncias ultramarinas portuguesas para Portugal e para o mundo ocidental, resolveu, por conta própria e à sua própria custa, vir do Brasil aos Estados Unidos a fim de tentar sensibilizar os americanos e os luso-americanos para esse sofrimento e para as carências materiais desse povo sacrificado à ignorância, à inépcia, aos complexos e aos caprichos de analfabetos políticos portugueses.

Como normalmente acontecia, o alojamento para uma boa parte desses bons patriotas portugueses, durante a sua estadia nos Estados Unidos, era a casa do Dr. Adriano Seabra Veiga, médico de clínica geral e cirurgia torácica, e cônsul honorário de Portugal, no Estado de Connecticut. E foi isso o que aconteceu também com o Professor Adriano Moreira, tanto mais tendo ainda em conta a velha amizade que os unia, devido sobretudo ao prestígio e à influência do já então falecido Comendador Seabra, um dos maiores empresários portugueses no Brasil, no campo dos tecidos, e tio do Dr. Seabra Veiga e seu protector e mecenas, desde o seu tempo de estudante de Medicina na Universidade de Coimbra e de estagiário em hospitais da Inglaterra e dos Estados Unidos. (Neste contexto, não posso deixar de referir o orgulho e a vaidade com que a Dona Lenita, oriunda da Galiza e viúva do Comendador Seabra, me falava da grande amizade que se estabelecera entre ela e o Professor Adriano Moreira e a Mónica, esposa dele.)

Em virtude da amizade que me ligava a Adriano Moreira, cimentada durante o seu exílio político no Brasil, pouco tempo depois do 11 de Março, com que ele, aliás, nada tivera a ver, aproveitando dessa sua viagem aos Estados Unidos, organizei-lhe uma conferência na minha Universidade - University of Connecticut - e outra na Columbia University, esta através do meu colega Kenneth Maxwell, professor de história e de ciência política nessa prestigiosa universidade. (Noutro contexto, contar a arrogância de Kenneth Maxwell, ao dizer-me que o breve livro de Adriano Moreira - O Novíssimo Príncipe -, que eu lhe oferecera, valia pouco; e contar também que, quando lhe pus nas mãos o livro que fora a tese de doutoramento de Adriano Moreira na Universidade Complutense de Madrid, já depois do 25 de Abril, Kenneth Maxwell teve de vergar-se à evidência e declarar que se tratava de uma obra séria e sólida. Refiro-me, naturalmente, a Europa em Formação. Lisboa, 1974.)

Tanto numa universidade como na outra, as conferências de Adriano Moreira foram um êxito retumbante. Professor exímio e orador nato, sem quaisquer notas, num Inglês fluente e vernáculo, Adriano Moreira colheu os aplausos de toda a audiência, constituída essencialmente por professores e por alunos de pós-graduação em Ciência Política, em Administração Pública e em História.

Mas como a razão fundamental que trouxera nessa ocasião o Prof. Adriano Moreira aos Estados Unidos era o caso de Timor, logo se concluiu que era importantíssimo marcar-lhe um encontro com o Cardeal Humberto Medeiros, luso-americano, oriundo dos Açores, sabendo que, entre as dioceses e arquidioceses americanas, era a Arquidiocese de Boston, juntamente com a Arquidiocese de Nova Iorque, a que mais contribuía financeiramente para causas humanitárias através do mundo. E esse encontro, programado por intermédio do Dr. Seabra Veiga, marcou-se para um dia à noite, na chancelaria da Arquidiocese de Boston, tendo-me eu oferecido para levar de carro Adriano Moreira a Boston e para o hospedar em minha casa.

Ora sucedeu que nesse dia de Inverno caiu uma enorme nevada, o que contribuiu para nos fazer atrasar a viagem de quase duas horas.

Chegados à chancelaria, em Boston, batemos à porta. E qual não foi o nosso espanto quando vimos abrir essa porta não a nenhum porteiro nem a nenhum secretário nem a nenhum sacerdote, mas ao próprio Cardeal Medeiros, príncipe da Igreja!

As primeiras palavras que nos dirigiu foram estas:

- Meus filhos, como ousaram vir com um tempo destes, no meio dessa neve toda? Que temeridade! Eu já mandei o pessoal todo para casa, para não correrem o risco de algum acidente por causa desta tempestade de neve. Mas entrem depressa para dentro. Venham aquecer-se. Vamos para junto da lareira.

E como se de verdadeiros filhos se tratasse, o bom homem de Deus não se cansava de nos dizer que tínhamos feito mal em arriscar-nos a uma viagem tão longa, no meio dum temporal assim. Que o protocolo não existe quando Deus nos mima com tanto frio e com tanta neve.

E discutido brevemente o lamentável caso de Timor e as necessidades prementes de todo esse bom povo, tão injustamente sacrificado e martirizado, caso que ele conhecia muito bem, o bom Cardeal louvou o Prof. Adriano Moreira pelos esforços envidados para minimizar o sofrimento dessa boa gente de Timor e pediu-lhe que ficasse descansado que ele, em cooperação com outras dioceses, ia redobrar os seus esforços para continuar a socorrer os timorenses.

Passaram os anos e o bom homem de Deus, o Cardeal Medeiros, adoece. E depois de uma longa doença, Deus resolve chamá-lo para si.

Tratando-se de um dos Cardeais mais conhecidos, respeitados e amados em todo o mundo, a sua morte foi notícia internacional. E chegou o dia do seu funeral. Era dia de aulas. Muito cedo, como de costume, aí vou eu a caminho da minha Universidade. Durante o percurso das treze milhas que separam a minha residência, em Manchester, de Storrs, onde se encontra a Universidade de Connecticut, uma estação de rádio de Boston, nessa manhã, não falava de outra coisa senão do funeral do Cardeal Medeiros.

Sendo, como quase sempre era, a primeira pessoa a chegar ao edifício em que tinha o meu escritório - Arjona Building -, estacionado o carro e acabado de sentar-me à secretária, lembrei-me de repente que há prioridades na vida. E eu que, na minha já bastante longa carreira de professor, não sabia o que era faltar a uma aula, a não ser por doença, apressei-me a escrever uma breve nota à secretária, dizendo que, por razões de força maior, nesse dia não podia dar as minhas aulas, pelo que lhe pedia que tivesse a bondade de notificar os meus alunos. Feito isso, meti-me no carro e parti a caminho de Boston, a quase duas horas de caminho, para tomar parte no funeral do Cardeal do povo. É que o gesto de bondade e humildade por ele praticado nessa inesquecível noite de temporal de neve tocara-me tão fundo no coração que não pude resistir ao impulso interior de lhe prestar a minha sentida homenagem por ocasião da sua chamada para o seio do Senhor.

Dizer da grandiosa solenidade da missa de requiem na catedral de Boston, com a presença de dezenas de cardeais e bispos, de centenas de sacerdotes e de freiras e de milhares de fiéis não é necessário, como não é necessário dizer do que foi o cortejo fúnebre através das autoestradas entre Boston e Fall River, cidade onde foram repousar os restos mortais do bom homem de Deus. Durante todo o percurso, dezenas de milhares de pessoas paravam os carros à beira das autoestradas, saíam dos carros e despediam-se do Cardeal dos pobres acenando com lenços brancos e derramando lágrimas.

Professor Emérito de Português e Espanhol da Universidade de Connecticut, EUA

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