A Sra. Dona Maria Helena

Já sabia quem ela era, mas nunca a tinha visto ao vivo. Estendi a mão quase sem levantar os olhos do chão. A pele marcada e fria dos seus dedos pareceu-me estranha. A cara enrugada, os óculos, o cabelo branco apanhado no topo da cabeça, o sorriso tranquilo deixaram-me mais tranquilo. "Muito prazer", disse-me. Estávamos no 14.º Arrondissement de Paris, na sua casa, onde vivia desde o fim da década de 1930 com o marido, que entretanto já tinha morrido. Pintor, como ela.

Eu tinha a sorte de ser um miúdo de 11 ou 12 anos com os pais divorciados: uma em Setúbal, um em Paris. A minha mãe metia-me num avião na Portela, o meu pai apanhava-me da mão de uma hospedeira em Orly. E naquelas férias da Páscoa ia passar uns dias na casa onde o meu pai trabalhava como mordomo, assistente, secretário, sei lá. A patroa era a Sra. Dona Maria Helena. "Vieira da Silva", completava eu o nome, mentalmente, de cada vez que à velhinha me referia.

O silêncio era a condição. E o portar-me bem. Isso não foi um problema. Via-a a pintar no ateliê, a deambular pela casa, a receber convidados, a comer - "pouquinho, como um passarinho", disse-me num dia dessas férias, já a quase cem quilómetros de distância daquele bairro parisiense, poiso de artistas no pós-Segunda Guerra Mundial.

As enormes vigas de madeira, o ferro bruto das junções, a vista para um campo de trigo, o sino da igreja às horas certas, criavam o ambiente naquele outro cenário, em Yèvre-Le-Chatel. Já estávamos na casa de férias, que partilhou com o amor de uma vida, Árpád Szenes, quando me disse que comia pouco. Estávamos à mesa, uma enorme mesa de madeira a que em algumas noites se reuniram muitos grandes nomes da pintura europeia da segunda metade do século XX.

As férias estavam a chegar ao fim. No dia seguinte, eu voltava a casa. Caminhei sem tentar fazer barulho no chão que rangia para me despedir da senhora. Sorriu-me da mesma forma tranquila do primeiro dia: "O menino já vai? Espera aí que tenho ali uma coisinha para ti..." Saiu e voltou à sala nem sei bem em quanto tempo, foi rápida. Veio com um canudo de papel na mão. "Gostei muito de te ter aqui. Toma, chama-se As Crianças."

Está pendurado, ainda e sempre, na sala de minha casa, seja ela onde for.

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