A República das 24 Horas é Campeã do Mundo

Foi um torneio de choques, desde os primeiros dias. Os campeões em título foram eliminados ainda na fase de grupos, algo que nunca lhes tinha acontecido. E a selecção que recolhia à partida grande parte do favoritismo (pelo menos no mercado de apostas) acabou por cair precocemente, derrotada pelos anfitriões.

O jogo derradeiro colocou frente a frente uma das selecções mais fortes (a única a resistir à vaga revolucionária) e a mais resiliente das surpresas - uma equipa inegavelmente talentosa, mas cuja presença na final poucos adivinhariam no início da competição. Qualquer final é decidida por pequenos pormenores: momentos em que meio segundo ou meio centímetro transformam irrevogavelmente o futuro; esta não fugiu à regra.

O candidato mais plausível a "momento tudo-poderia-ser-diferente" ocorreu ao minuto 79. O médio-ala Unal Kaya esgueirou-se pelo flanco direito, avançou até à linha e sacou um cruzamento milimétrico para a área da Carpatália, onde o possante avançado Mehmet (1,90m de altura) evadiu a até aí cerrada marcação de Alex Svedjuk, e cabeceou de cima para baixo. A bola bateu no chão, meio metro à frente do guarda-redes Béla Fejér, que ergueu os braços por instinto, o suficiente para desviar a trajectória ascendente e fazer a bola pingar duas vezes na barra antes de sair. Foi a última oportunidade de golo clara produzida pelo caudal ofensivo da República Turca do Norte de Chipre. O nulo manteve-se até ao apito final e a decisão foi adiada para as grandes penalidades.

Estes empolgantes acontecimentos tiveram lugar a 9 de Junho, perante dois mil e quinhentos espectadores, no Estádio Queen Elizabeth II em Enfield, um bairro no norte de Londres. Foi a terceira edição do Campeonato do Mundo alternativo organizado pela ConIFA, organismo presidido por um ex-árbitro holandês e por um excêntrico coleccionador alemão, que reúne associações de futebol independentes não-afiliadas com a FIFA.

Há várias razões para não se ser reconhecido pela FIFA, e os membros da ConIFA exibem um catálogo completo: desde Tuvalu, que não cumpre os critérios de admissão sobre o número apropriado de estádios e hotéis no seu território, até ao Tibete, que não cumpre o requisito de não irritar a China. Os restantes membros incluem toda a espécie de micro-estados, diásporas, minorias étnicas ou linguísticas, acidentes históricos e disfunções geográficas. O próprio local do torneio é um exercício de excentricidade cartográfica: embora tenha decorrido oficialmente em Barawa, uma pequena cidade portuária no corno de África, 200 quilómetros a sul de Mogadishu, os jogos realizaram-se em Londres, pois é essa a sede da Federação do Barawa, criada pela comunidade somali no exílio.

O desempate por grandes penalidades acabou por dar o troféu à Carpatália, que representa um enclave em território ucraniano conhecido como Ruténia ou Transcarpátia, conhecido entre os apreciadores de curiosidades históricas como o Estado independente mais fugaz do século XX. Em 15 de Março de 1939, dia em que as tropas de Hitler avançaram sobre Praga e a Checoslováquia foi desmantelada em protectorados ou estados-clientes do III Reich, a Transcarpátia autoproclamou-se uma república independente às dez da manhã e foi invadida pelo exército húngaro ao anoitecer, sendo formalmente anexada no dia seguinte. Foram vinte e quatro horas de auto-determinação imaginária, numa região que ao longo dos séculos fez parte do Principado da Galícia, do Império Austro-Húngaro, da Turquia Otomana, da Checoslováquia, da Eslováquia, da Hungria, da União Soviética e da Ucrânia.

Portanto uma equipa vinda de lado nenhum ganhou um torneio para o qual nem sequer se apurou. Tal como a Dinamarca no Euro-92, a Carpatália foi convidada pela organização para suprimir uma desistência de última hora - não de um país que tinha subitamente deixado de existir, como a Jugoslávia em 1992 (um risco que os membros da ConIFA, para ser franco, nunca correm), mas de um não-país cujos jogadores simplesmente não conseguiram angariar fundos para viajar até Londres.

Um resumo alargado da final pode ser encontrado no YouTube. Béla Fejér, o tal que já tinha desviado para a trave um golo feito, defendeu o penálti decisivo com um voo acrobático que tornou a Carpatália campeã de um mundo que não sabe muito bem se ela existe. Pode não ser a história futebolística mais importante do Verão; mas é certamente a que menos vezes inclui a palavra "França", e só isso é mérito suficiente.

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