A decadente política externa do Ocidente

Porque estão os países ocidentais tão relutantes em criticar o comportamento da China de maneira mais audível e consistente? A resposta, ao que parece, é o dinheiro

Hoje, o Ocidente pode ser descrito como decadente. Isso não significa simplesmente que somos viciados em "pão e circo", desde os programas de assistência social na Europa (que mal podemos pagar) ao Super Bowl nos Estados Unidos. Significa também que estamos cada vez mais relutantes em permitir que a nossa própria visão das liberdades civis e dos direitos humanos formate as nossas políticas externas, devido aos potenciais custos comerciais.

Considere-se o caso do dissidente chinês e premiado com o Prémio Nobel da Paz, Liu Xiaobo, que morreu recentemente enquanto cumpria uma pena de 11 anos de prisão por apelar pela democracia na China. As autoridades chinesas recusaram o pedido de Liu, feito poucas semanas antes da sua morte, para procurar tratamento no exterior para o seu cancro agressivo e a sua mulher permanece sob prisão domiciliária.

O tratamento dado pela China aos dissidentes como Liu é pouco menos que selvagem. No entanto, os líderes ocidentais fizeram apenas algumas declarações diplomáticas cuidadosamente formuladas criticando-o.

Não posso deixar de me perguntar quantos líderes ocidentais abordaram, nos últimos anos, o caso de Liu com os seus homólogos chineses atrás de portas fechadas. As oportunidades abundaram certamente, inclusive na reunião do G20 deste verão, quando Liu estava no seu leito de morte.

Mas parece improvável que líderes ocidentais tenham enfrentado o presidente chinês Xi Jinping sobre o assunto. Afinal, quando Liu foi premiado com o Prémio Nobel em 2010, e uma China enfurecida tentou ostracizar a Noruega, o Ocidente não expressou indignação nem mostrou verdadeira solidariedade com um aliado da NATO.

O tratamento dado pela China a Hong Kong também não foi contestado pelos líderes ocidentais. A China parece ter a intenção de violar as suas obrigações, estabelecidas na "declaração conjunta" assinada com o Reino Unido, de preservar o modo de vida da cidade e o Estado de direito até 2047. Já ameaçou a independência do poder judicial, a autonomia de universidades e a liberdade de imprensa. No entanto, houve pouca pressão do Ocidente, incluindo o Reino Unido.

Porque estão os países ocidentais tão relutantes em criticar o comportamento da China de maneira mais audível e consistente? A resposta, ao que parece, é o dinheiro.

A Grécia, que afirma orgulhosamente ser o berço da democracia, tem líderes que cresceram em grande parte em oposição a um governo militar autoritário. No entanto, o seu governo com escassez de dinheiro impediu recentemente a União Europeia de criticar nas Nações Unidas a situação dos direitos humanos na China, porque a China proporciona investimentos cruciais, particularmente da China Ocean Shipping Company, conhecida como COSCO, que em agosto de 2016 adquiriu uma participação maioritária no porto do Pireu. O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras - supostamente um esquerdista radical que, homenageando Che Guevara, chamou Ernesto ao filho - tornou-se uma marioneta da China.

A falência moral do Ocidente está em exibição mais perto de casa também. A UE continua a refrear-se de condenar a atitude rufia do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que se gabou orgulhosamente da sua crença na "democracia iliberal" (uma contradição em si mesma). Sob a liderança de Orbán, as violações das convenções de direitos humanos no tratamento dos refugiados foram acompanhadas por uma repressão à sociedade civil, particularmente a organizações que recebem dinheiro de fora do país.

Um alvo destacado da repressão é a Universidade da Europa Central, um bastião de debate, ensino e investigação livres na Hungria, financiado por George Soros. Orbán chegou ao ponto de ressuscitar algumas das mais repugnantes imagens antissemitas da Hungria dos anos 1930 (aliada da Alemanha nazi) para demonizar Soros. No entanto, o próprio Orbán frequentou a Universidade de Oxford (onde sou reitor) com uma bolsa de estudos financiada por Soros, e ali estudou com o grande pensador liberal Isaiah Berlin.

Apesar de a Hungria de Orbán rejeitar as obrigações de membro da UE, o país recebe anualmente mais de 5,5 mil milhões de euros da UE, contribuindo com menos de mil milhões de euros para o orçamento comum. Porque pagam os cidadãos europeus tanto a um governo que os despreza e que compara a UE com a União Soviética? No mínimo, a UE deve aplicar as disposições do Tratado de Lisboa que lhe permitem suspender alguns dos direitos de um país que está a quebrar as suas regras e a desprezar os seus padrões e valores.

O comportamento do governo do Partido da Lei e da Justiça da Polónia (PiS) - que mostra pouca preocupação quer com a lei quer com a justiça - levanta questões similares. O governo está a trabalhar para reformar a Constituição, a fim de alterar os equilíbrios democráticos. Quer simplesmente que os juízes façam o que os políticos lhes dizem, e não quer que os meios de comunicação social possam falar muito sobre isso. Eu diria que os governantes da China não teriam dificuldade em entender a abordagem do PiS.

A Turquia, claro, não é membro da UE nem nunca o será se continuar no caminho da repressão ditatorial enveredado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, grande fã de Vladimir Putin da Rússia. Mas, a julgar pela crescente tolerância da UE ao iliberalismo, alguns líderes da UE podem estar preparados para contemplar uma relação mais próxima com a Turquia de Erdogan.

Esta decadência da política externa ameaça destruir a afirmação da UE de ser uma comunidade de valores e não apenas uma união aduaneira glorificada. Como sabemos da experiência dos anos 1920 e 1930, à medida que a decadência produz mais decadência, o mundo torna-se um lugar cada vez mais perigoso e instável. É hora de a Europa encontrar novamente a sua bússola moral e de ser acompanhada pelos Estados Unidos depois de o presidente Donald Trump cessar funções.

Último governador britânico de Hong Kong e ex-comissário da UE para os assuntos externos é reitor da Universidade de Oxford.

( C ) 2017 The Financial Times Limited

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