A Covid e o futuro

A prolongada pandemia da covid-19 mostra sinais de que permanecerá entre nós por mais tempo do que qualquer um poderia prever. Como a OMS espera, não estamos longe da primeira vacina, mas esta, provavelmente, não vai deter as epidemias. O motivo não está na qualidade da futura vacina, mas noutra coisa.

É agora óbvio que as pessoas na maioria dos países não estão mais dispostas a seguir as diretrizes emitidas pelas autoridades de saúde. Independentemente do risco, as pessoas estão cada vez mais abertas às teorias de que toda a epidemia é exagerada e que o risco real é muito menor, está ao nível da simples gripe.

A razão para a situação estar a evoluir a favor daqueles que veem uma gigantesca conspiração da indústria farmacêutica para ganhar mais dinheiro do que já ganhava, está na cabeça das pessoas. A população em geral consegue tomar medidas que mudaram totalmente a sua vida social, prejudicaram a sua capacidade de ganhar dinheiro para sustentar a família, consegue aceitar dificuldades com os filhos na escola, só até certo ponto. Portanto, se a pandemia vai durar cada vez mais, como parece provável, a disposição das pessoas para seguirem as medidas de prevenção da epidemia será menor. É uma experiência totalmente nova para o nosso dia a dia e as autoridades de saúde terão de lidar com as teorias mais ridículas para comprovar o perigo do vírus, o que deveria ser muito óbvio para todos.

Decididamente, é muito mais fácil pensar que todo o perigo é exagerado, que o vírus não existe ou está ao mesmo nível daqueles que temos todos os anos, do que viver sob a pressão de apanhar a doença desconhecida e acabar nos ventiladores do hospital. Essa crença vai mais longe e, basicamente, está a convencer muitas pessoas de que não podem contrair a doença, esquecendo que podem ser contagiosas para outras pessoas, inclusivamente os seus familiares mais próximos.

Acrescentemos a isso o comportamento de alguns líderes políticos, que procuram desesperadamente provar a sua força ignorando todas as medidas na luta contra o coronavírus, dizendo ao povo duas coisas importantes: Eu estou acima das regras, porque não tenho de me comportar como lhes foi pedido a vocês e, no final, vocês também não precisam de seguir essas regras. Assim, com isso, a pandemia prolongar-se-á e o mundo poderá entrar no círculo vicioso, acreditando cada vez menos na única saída, que é a vacina.

Passados cerca de 10 meses desde a eclosão mundial da pandemia, é claro que as medidas de proteção introduzidas pelas autoridades dividiram as pessoas em dois grupos básicos: o primeiro que as aceita, aplica-as, esperando que o número de vítimas seja minimizado até que a vacina seja descoberta e o segundo grupo que vai duvidar cada vez mais da existência do coronavírus como algo novo, aceitando as teorias de que ele sempre existiu entre nós, perigoso como a gripe para aqueles que já têm problemas médicos subjacentes. O segundo grupo irá ignorar a maioria das medidas de segurança e contribuir diretamente para a existência prolongada da pandemia, pois também em muitos casos rejeitará tomar a vacina, o que é a parte importante da teoria da conspiração farmacêutica.

Antigo embaixador da Sérvia em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

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