31 de Maio, Dia dos Irmãos

Esta ideia simples já caminha há três anos. Convoca quem quer vir connosco celebrar a relação de irmãos. Queremos chegar às instâncias internacionais. Devagar se vai ao longe. Uma ideia que não fractura, uma ideia feliz. Não havia este dia - há muitos outros, mas faltava este. Vemos muita gente a aderir. As famílias sobretudo. Muitos outros, desde o comércio aos media. Em Lisboa, a CP fará um desconto de 25% a quem se apresentar no dia 31 de Maio com um irmão ou uma irmã. Gosto de ver os pacotes de açúcar da Delta, que, neste ano, circulam com o símbolo do Dia dos Irmãos - adoçamos o café, adoçamos com a ideia. A frase sugere um sorriso e uma conversa: "Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos."
Porque é simples? Porque nos adoça a alma? Porque a relação de irmãos é a mais próxima: acompanha-nos desde que nascemos até ao final da vida. Ficará depois da morte dos nossos pais. E a sua perda dói e quebra: perdemos parte de nós ou perdemo-nos de nós.

A infância marca-nos a vida. Com os irmãos, fizemos todas as tropelias, descobrimos segredos, inventámos brincadeiras, experimentámos a maior parte dos sentimentos que nos fazem seres humanos.

De memória, recuando nos anos, chegamos a pais e avós. Também aos nossos irmãos. Cumplicidades. Rivalidades. Coisas boas e coisas más, é assim que crescemos. Proximidades. Intimidades. Pertença a uma origem, a um lugar, uma maneira comum de ver a vida. A família é o espaço onde chegamos e chegam também os nossos irmãos. O espaço onde cada um pode ser mesmo o que é. Onde é possível crescer sem máscaras. Onde nos tornamos gente. Fazemo-nos gente com os nossos irmãos: com eles e a partir deles. Percebendo o que somos, no meio deles, na pertença a eles.

É também o que sentimos com os tios - irmãos dos nossos pais. E com os primos - quase nossos irmãos, porque filhos dos irmãos de nossos pais. A família é isto. Afectos que transbordam e nos fazem desejar, nas relações que vamos estabelecendo, um eco dessa solidariedade, dessa pertença simples, espontânea, natural.

Dir-me-ão: "Mas vivemos tempos de famílias mais pequenas, com menos filhos e menos irmãos." Somos um dos países com mais filhos únicos. A quebra da natalidade das últimas décadas, que a crise acentuou, torna mais rara esta vivência, esta experiência tão rica e tão especial. O desejo das famílias portuguesas é terem mais filhos e aproximarem-se de uma taxa de fertilidade de 2,3. Demasiadas famílias não o conseguem, ficam aquém, infelizmente para elas e para todos nós. Aos governos, compete melhorar as políticas públicas que ajudem as famílias a ter os filhos que desejam. Há muito a fazer. É possível começar a reverter a situação.

Estou convicta de que uma criança cresce ainda melhor entre irmãos. O mundo precisa desta relação, desta dinâmica. As sociedades precisam de crianças e as crianças precisam de outras crianças. A coesão social precisa da família, como a primeira escola da generosidade e da solidariedade. É lá que se aprende a partilha, a igualdade, a fraternidade.

Quem tem irmãos sabe do que falo. Quem não tem, sabe o que lhe faltou.

Amanhã, aproveite este dia para lembrar isto. Para dizer alguma coisa que ainda não tenha dito. Com palavras ou com gestos. Estes dias servem para isso. Ajudam-nos a exprimir coisas que estão cá dentro.

Eu agradeço aos meus irmãos. Somos quatro. Sou a segunda na fratria. Não sei o que seria sem eles.
Bom Dia dos Irmãos!

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