Voar ou o Euromilhões ao contrário

Aperto o cinto, fecho os olhos, agarro-me aos braços da cadeira e tento apagar o cérebro (o que no meu caso é quase impossível, dado o nível de overthinking que o encharca). Isto acontece em todas as descolagens e aterragens. Ao mínimo solavanco, sobressalto-me de tal forma que o vizinho do lado, conhecido ou desconhecido, dá sinal de contágio. O medo tem esse efeito. Durante a viagem vou de olhos postos no ecrã com o aviãozinho, a ver em que ponto da rota estou e o tempo que falta para chegar. De tempos a tempos, observo, perscrutante, o estado de espírito da tripulação. Nem as refeições nem o chá, café ou laranjada me distraem.

O drama é que nas horas que antecedem o voo (e durante o dito) a certeza de que vou morrer invade-me. Nos dias antes da viagem, despeço-me de toda a gente que amo como se fosse a última vez que nos vemos (ou ouvimos). Faço pesquisas na internet sobre estatísticas de acidentes aéreos. Estudo probabilidades. Faço filmes. Imagino cenários. Sinto o que sentiria se o que mais temo acontecesse. E o que mais temo é que o avião caia.

Não foi sempre assim. Se olhar para trás e analisar, percebo que comecei a ter verdadeiro pânico de voar depois de ter filhos. Talvez também tenha sido por causa deles que comecei a ter medo de morrer. A minha vida deixou de me pertencer só a mim. Tem tudo que ver com controlo, li uma vez num livro sobre a fobia. É difícil para algumas pessoas - eu, pelos vistos sou uma delas - abdicar do controlo e deixar-se ir, pôr o destino nas mãos de outros. Talvez tenha também que ver com acharmos que somos o centro do universo. Os desastres aéreos são raros, se pensarmos na quantidade de aviões que circulam todos os dias nos céus do mundo inteiro. Tão raros como ganhar o Euromilhões. E, no entanto, quando jogo, também tenho sempre a certeza de que vou ganhar. Nunca aconteceu, mas, entre a sorte e o azar, que venham de lá os milhões.

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