Março: o mês em que deixei de ser só Catarina

Um metro e oitenta, para aí, noventa quilos, para aí. Depois dele, que nasceu em março, com três quilos e quatrocentos e quarenta e nove centímetros, deixei de ser só Catarina para passar a ser também mãe do João. Sempre quis ser mãe, apesar do carrinho de bebé e dos bonecos chorões a minha infância toda a um canto, sem ninguém que brincasse com eles, e naquela manhã de março aconteceu. Nasci outra vez, com o meu primeiro filho.

Quatro horas de trabalho de parto que incluíram todos os palavrões que conhecia e na altura não tinha por hábito dizer e um enfermeiro em cima de mim para me ensinar a fazer força. Não queria sair, o João. Foram precisas ventosas. Talvez por isso, na primeira noite em casa, um berreiro que nos levou, a mim, a ele e ao pai, de volta ao hospital. Talvez por isso, a pediatra poeta, a quem só me apetecia bater: "É alergia ao mundo."

Não sei se era, mas, se era, passou. Dos quarenta e nove centímetros ao metro e oitenta foi um pulo. Um espanto todos os dias, ver o meu bebé tão grande. Aquele bebé que abria os braços a toda a gente, seguro de que o meu colo estava sempre ali quando quisesse voltar.

Aquele bebé que acordava a sala de creche toda, à hora da sesta, a cantar. Aquele bebé de olhar curioso e perguntas sobre tudo é agora um rapaz enorme, que às vezes me enerva - insolente, preguiçoso, argumentativo, alvoreado -, mas sobretudo me enternece - inteligente, leal, doce, corajoso, ainda à procura do meu colo, quando é preciso. Faz neste mês 16 anos o miúdo que me ensinou a ser mãe e o que é amar sem condições.

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