Portugal ficará para sempre impresso na minha alma

Muitos perguntam-me do que é que mais gosto de Portugal. A resposta é difícil. Desde que cá cheguei como embaixadora apaixonei-me por este país, que conheci no oriente enquanto Cônsul da Colômbia em Hong Kong (ainda a bela região de Macau era portuguesa e onde recordo agradáveis passeios pela magnífica calçada do Largo do Leal Senado) e, mais recentemente, como embaixadora na China. Sabia que esta experiência seria fantástica e que o acolhimento cálido e fraterno dos portugueses o é como em pouquíssimos lugares no mundo. Ao chegar a Lisboa, rapidamente senti que podia fazer a diferença, iniciar um trabalho de projeção das relações bilaterais e promover a imagem da Colômbia atual, que é desconhecida dos portugueses.

A Colômbia celebra este ano o bicentenário da proclamação da República e, na sua história partilhada com Portugal, os 162 anos de amizade e de relações bilaterais, que se deram com a assinatura dos primeiros tratados entre a jovem República e o Reino de Portugal.

Não obstante esses quase 200 anos que nos unem, foi na última década que se deu um exponencial crescimento das relações entre os dois países, tendo sido determinante o apoio e entrada do Grupo Jerónimo Martins no mercado colombiano, num momento tão complexo da nossa história. Foram 50 anos de duro combate ao terrorismo e aos grupos armados insurgentes. Portugal sofreu connosco, acompanhou momentos tão marcantes como o sequestro de Ingrid Betancourt, de Clara Rojas, entre tantos outros colombianos, e viveu as alegrias do Processo de Paz. Durante todo este período o apoio de Portugal e da Cooperação Portuguesa foi excecional e está bem patente em projetos como o dos "Territórios Sustentáveis para a Paz no Caquetá" que, nessa belíssima região do sul da Colômbia, onde a natureza impera, promove a produção agrícola numa lógica de preservação ambiental, inclusão social e de legalidade, visando a erradicação e substituição da produção de substâncias de uso ilícito, que financia as guerrilhas, por culturas como a do cacau. Estes projetos, bem como as visitas de trabalho e reuniões mantidas entre membros dos Governos dos dois países, ou a crescente participação de empresas portuguesas na economia colombiana, têm vindo a aproximar-nos cada vez mais. Mas não só.

A cultura colombiana tem sido um dos alicerces da promoção do país no estrangeiro e os portugueses têm-nos recebido sempre de braços abertos. Durante o meu mandato como embaixadora em Portugal foi possível trazer a voz e o ritmo de María Mulata, a salsa do grupo La Mambanegra ou uma mostra etnográfica do Carnaval de Barranquilla às últimas edições do Festival Internacional da Máscara Ibérica, em Lisboa. Num outro registo, o Museu Nacional de Arte Antiga, sob a direção de António Pimentel, abriu as suas portas a um dos maiores tesouros nacionais da Colômbia e da arte barroca mundial, acolhendo a Custódia da Igreja de Santo Inácio de Bogotá, conhecida como "La Lechuga", pelas 1486 esmeraldas colombianas que a compõem. Uma peça extraordinária.

Todos estes acontecimentos só foram possíveis graças ao extraordinário trabalho em equipa, coesão, entusiasmo e apoio dos funcionários que me acompanharam na Embaixada, que se constituiu como uma segunda família. Este sentimento fraterno e afetuoso é, talvez, um dos elementos que nos aproxima e nos torna tão semelhantes, a colombianos e portugueses.

Afeto é, também, a palavra que marca o emocionante projeto português "Marinheiros da Esperança", que levou a imaginação dos meninos internados nas pediatrias do SNS até Cartagena das Índias e Santa Marta, sonhando com a cor e a alegria da costa colombiana. Mais, este projeto honrou-nos com uma pintura do navio-escola "Glória", da Armada da Colômbia, na entrada do Serviço de Pediatria do Hospital de São João, no Porto, que tive a oportunidade de visitar. Uma ocasião tocante e inesquecível. Tão inesquecível como foi a participação do navio-escola "Sagres" na regata Sail Cartagena 2018 e no 50.º aniversário do navio-escola "Glória", que atualmente acolhe os desenhos dos meninos portugueses.

"Pelo sonho é que vamos" e a Colômbia não só posiciona-se como líder regional como acredita firmemente no seu progresso. Afirmamo-nos hoje como um dos mais fabulosos destinos turísticos a descobrir, com uma extraordinária oferta cultural, património, natureza, aventura e gastronomia. É com imensa satisfação e alegria que vejo o crescimento do fluxo de turistas portugueses que regressam tão apaixonados pela Colômbia como eu e a minha família estamos por Portugal.

Termino esta etapa com o coração cheio, com o sentimento de missão cumprida e eternamente grata pelos muitos e grandes amigos que deixo por cá. Vou com uma admiração imensa pelo Senhor Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, pelos Portugueses e pela sua História. Dedico, também, uma palavra de homenagem aos meus colegas do Grupo de Embaixadores da América Latina e Caraíbas e, sobretudo, às minhas queridas colegas da AWA - Associação das Mulheres Embaixadoras em Portugal, a que tive a honra de presidir.

Portugal ficará para sempre impresso na minha alma.

Do que é que mais gosto de Portugal? Tudo.

Embaixadora da Colômbia em Portugal

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