Os fundamentais

Quatro fatores contribuíram para o adiamento das negociações sobre a Síria, marcada para ontem em Genebra. O primeiro é a divergência entre quem deve ou não representar a oposição a Assad. Como sabemos desde o início da guerra, já lá vão quase cinco anos, a competição dentro da oposição sunita tem sido um dos trunfos da manutenção do regime e do crescimento do ISIS. Sem uma agenda comum, liderança e estrutura militar coesa, os vários grupos permanecem apoiados por atores externos também eles com interesses particulares. À medida que Assad foi ficando, parte desses grupos radicalizou-se e muitos passaram à órbita da Al-Qaeda e do ISIS. O segundo fator é a defesa de alguns, como a Rússia, da inclusão nas negociações de grupos curdos, absolutamente impensável para a Turquia. O terceiro é a clivagem de ódio entre o Irão e a Arábia Saudita, acicatada com a execução do clérigo xiita por Riade. Sem iranianos e sauditas a contribuírem para algum desanuviamento do conflito, é impossível que se sentem à mesa representantes do regime e da oposição minimamente capazes de tornar um acordo num roteiro exequível. Nenhum se prestará a isso nem negociará qualquer cessar-fogo ou governo de transição, com ou sem Assad. O quarto fator é exatamente este: não há entendimento sobre o futuro de Assad. O Irão e a Rússia permanecem ao lado do regime, embora não excluam encontrar uma figura mais consensual se isso mantiver os seus interesses intactos e for um fator de eliminação progressiva do ISIS. Arábia Saudita, Qatar e Turquia continuam irredutíveis na defesa da mudança de regime. Entre estes dois blocos, EUA e alguns países europeus procuram um meio termo capaz de operacionalizar um cessar-fogo e tornar mais eficaz a frente anti-ISIS. Vale a pena lembrar que Washington está há 18 meses a bombardear o ISIS com os resultados que se conhecem.

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Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

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Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

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Catarina Carvalho

Querem saber como apoiar os media? Perguntem aos leitores

Não há nenhum negócio que possa funcionar sem que quem o consome lhe dê algum valor. Carros que não andam não são vendidos. Sapatos que deixam entrar água podem enganar os primeiros que os compram mas não terão futuro. Então, o que há de diferente com o jornalismo? Vale a pena perguntar, depois de uma semana em que, em Portugal, o Sindicato dos Jornalistas debateu o financiamento dos media, e, em Espanha, a Associação Internacional dos Editores (Wan-Ifra) debateu o negócio das subscrições eletrónicas.