Os senhores que se seguem

Tão importante como acompanhar ao segundo a administração Trump e o posicionamento da América, é seguir ao milímetro as posições da administração chinesa, interpretando as dinâmicas externas nesta fase de alteração tectónica internacional. Por isso regresso a Davos, onde Xi Jinping surpreendeu a audiência ao assumir-se como baluarte da globalização e um supervisor maduro dos pilares da ordem liberal. Mas não só: comprometeu-se a investir mais de 300 mim milhões de dólares em energias renováveis, preservar o Acordo de Paris sobre alterações climáticas, e em abrir de forma mais expressiva a economia ao investimento estrangeiro. Quem tenha o mínimo contacto com empresários chineses ou conheça um pouco da sua economia, só pode desconfiar da boa vontade, mesmo que reconheça a necessidade de levar a cabo todas essas bandeiras. Mais do que o conteúdo, fundamental em política, é a forma e o momento do enunciado por Xi Jinping que merecem atenção.

Primeiro, por encaixar num quadro de retração nacionalista enunciado pela administração americana, projetando assim uma legitimidade absolutamente necessária à melhoria da aceitação dos propósitos chineses no exterior. Para Pequim, não basta que as entradas estratégicas em África, Europa, Médio Oriente, América Latina e se façam por necessidade alheia em consolidar orçamentos, construir infraestruturas ou privatizar setores estratégicos. Segundo, se é verdade que Pequim quer isto tudo, quer também ser vista como um ator de primeira grandeza aceite por todos, através de um capitalismo de Politburo benevolente, capaz de expandir a radial de interesses de uma forma mais pacífica e menos onerosa. Esta legitimação vem ainda num momento em que Washington mistura desorientação e confrontação na sua agenda asiática, tornando impercetível aos aliados no Índico e no Pacífico qual o roteiro pretendido. Que o diga a Austrália.

Mas se há uma distância substancial entre as medidas enunciadas por Xi Jinping em Davos e a realidade da economia chinesa, já não há tanta disfuncionalidade entre o atual internacionalismo chinês e o desejo de definir os moldes da globalização. Um dos aspetos mais interessantes tem sido a forma como Pequim acompanhou o Tratado Transpacífico (TPP). Na fase de negociação e assinatura, a China interpretou o acordo como um cerco à sua ascensão regional e um mecanismo da administração Obama em concretizar a estratégia de pivô no Pacífico. Quando Trump rasgou o TPP, Pequim celebrou o gesto, agradecendo o bónus dado por Washington, não sem antes ter visto o Parlamento japonês ratificá-lo no preciso dia da tomada de posse do novo presidente americano. Só que, ao mesmo tempo em que o TPP esteve à mesa, a China soube inteligentemente promover um roteiro de comércio livre multilateral (RCEP), juntando os dez membros da ASEAN à Austrália, à Índia, ao Japão, à Coreia do Sul e à Nova Zelândia, em rondas preparatórias com vista a criar um espaço de acomodação comercial para os que estando no TPP antecipavam a dificuldade em tê-lo em vigor, e os que não estando, como a China, pudessem liderar um mercado com 45% da população mundial, responsável por 40% do comércio global e 25% do PIB à mesma escala. A implosão do TPP estende uma passadeira vermelha à China para poder confirmar a sua primazia na Ásia/Pacífico.

A questão é que se esta região continuar a ser pautada pelas dinâmicas comerciais, políticas, científicas, tecnológicas, educativas e culturais chinesas, há já outras geografias menos próximas com cada vez mais sólidos alicerces de presença chinesa capazes de potenciar os mesmos propósitos. Veja-se o caso da capacidade comercial de Pequim nos vários oceanos e estreitos congestionados, assente numa rede crescente de portos estratégicos e competências logísticas, as quais garantem um modelo exportador global hoje sem paralelo e uma entrada política em vários circuitos económicos mais ou menos dependentes do investimento estrangeiro. Neste âmbito, Gwadar (Paquistão), Colombo (Sri Lanka), Pireu (Grécia) e Djibuti (onde está instalada a primeira base militar permanente chinesa no exterior) garantem profundidade comercial e energética, especialmente no imponente corredor entre o Índico e o Mediterrâneo.

Esta projeção de poder é bem revelada pelos números. Dos 50 maiores portos mundiais, 31 têm hoje investimento ou controlo absoluto da China - em 2000, apenas oito. A sua frota pesqueira é a maior entre todas, com cerca de 200 mil embarcações que atuam muitas vezes à revelia da soberania que os Estados têm sobre as suas águas territoriais, enfraquecendo ainda mais economias altamente dependentes desse recurso. A marinha de guerra é a que mais se tem apetrechado entre todas as grandes potências, investimento que se justifica pela predisposição em disputar e controlar acessos marítimos e zonas de potencial energético, como o mar do Sul da China e o Ártico. A China está a tornar-se numa superpotência dos oceanos, à qual alia uma dimensão terrestre, através da ambiciosa Nova Rota da Seda, e financeira, por via do AIIB. Em Washington, Obama optou por não entrar neste banco de investimento asiático, enquanto Trump rasgou o TPP, castiga aliados no Pacífico, desdenha os espaços comerciais multilaterais e não tem qualquer estratégia para conter a ascensão chinesa a não ser ameaçar Pequim e empurrar os aliados para os seus braços.

No meio disto mora a Europa que, sem estratégia, coesão e firmeza, vai continuar a sujeitar-se aos empurrões vindos de todos os lados. Rússia incluída. É difícil ser otimista nos dias que correm.

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