Obviamente, demitam-se

O texto de "um alto funcionário da Casa Branca" publicado no The New York Times descreve a incapacidade política, moral e técnica do presidente Trump para o exercício das suas funções. Agradeço ao senhor funcionário a revelação, mas já tínhamos chegado a essa conclusão há muito tempo. A novidade não está, por isso, nas revelações feitas, mas no facto de alguém com estatuto sénior na Casa Branca querer expô-las em público.

Só que este facto, de total desalinhamento com as faculdades presidenciais, não requeria um artigo anónimo num grande jornal de referência, mas um verdadeiro acto de coragem: o pedido de demissão pelo dito funcionário. Aliás, não seria o primeiro, dado que nunca num primeiro ano de mandato, um presidente americano teve tantas saídas do seu círculo político mais próximo. Quem não reconhece qualquer aptidão a um líder para comandar um país, não deve simplesmente trabalhar com ele.

Essa demissão, então sim explicada num jornal ou numa televisão dando a cara, deveria ser analisada por quem de direito para dela extrair matéria de facto que pudesse levantar a 25ª emenda e a constituição de uma comissão no Congresso que despoletasse o processo de impeachment. Se o objectivo final é esse, então o caminho deve ser liso, factual, corajoso e sobretudo constitucional. Escrever anonimamente sobre matéria de relevância extrema para a continuidade do exercício do poder presidencial cria uma nova neblina sobre a veracidade dos factos e sobre o alcance da avaliação política que se quer suscitar.

Mas, sobretudo, entronca bem na narrativa de vitimização de Trump que, de uma assentada, coloca no mesmo saco a "inconsistência" de mais um trabalho de Bob Woodward, as "fake news" de um inimigo como o The New York Times e a "cobardia e traição" do funcionário da Casa Branca. É deste efeito boomerang que Trump bebe permanentemente desde a campanha de 2016, grande parte da energia de ódio dos seus apoiantes: primeiro contra adversários republicanos, depois contra a máquina de Clinton, depois contra o legado de Obama e finalmente contra tudo e todos.

Se, como diz o texto anónimo, continuam a existir "adultos na sala" (Kelly, Mattis e poucos mais) então só têm uma coisa a fazer face à gravidade das acusações a Trump: demitirem-se. Exporem o que sabem ao Congresso e ao povo americano.

A Casa Branca pode estar em caos e em crise, mas a república constitucional americana não pode cair no mesmo buraco. Seria tão somente o seu fim.

*escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico

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