O professor e o aluno

Estaria tudo muito bem se o encontro de amanhã entre Trump e Putin tivesse seguido um roteiro de preparação mínimo e a Casa Branca se desse ao trabalho de deixar sair na imprensa um ou dois objectivos concretos a atingir. Apesar do logro que encerrou o encontro com Kim Jong-un em Singapura, pelo menos esse encontro foi alvo de algumas reuniões prévias entre as partes e da exposição prévia sobre alguns pontos que Washington queria alcançar, nomeadamente o compromisso de Pyongyang em iniciar uma desnuclearização irreversível.

Podemos criticar a crença imberbe nos parâmetros do acordo final, como aqui fiz, mas que as expectativas de ambos os lados foram alinhadas previamente, foram. Nada disto se passou no encontro de Helsínquia.


Primeiro, há uma demonstração pública e reiterada de Donald Trump em querer reunir a sós com Putin mais próxima de uma qualquer tara juvenil do que de um líder democrático avisado. Depois de se terem encontrado duas vezes - uma em Hamburgo na cimeira do G20 (Julho 2017) e outra no Vietname aquando da reunião da APEC (novembro 2017), consta que Trump terá tentado um par de vezes que Putin fosse à Casa Branca.

Aliás, uma das histórias que circulam em Washington sobre o método Trump sempre que contacta líderes internacionais diz que, no final de cada telefonema, o presidente americano costuma terminar a conversa com um "se passar por DC, dê um salto cá a Casa". Agora, que Putin lhe concedeu a honra de se encontrarem num terceiro país, não deve estar a ser fácil aos conselheiros conterem a ansiedade do presidente americano. Talvez para baixar a adrenalina, tenha ido dois dias jogar golfe para a Escócia, o que também diz muito da importância que deu ao encontro com a senhora May.


Em segundo lugar, ao contrário do que é habitual em encontros desta dimensão política e estratégica, só existiu uma reunião preparatória e ela foi protagonizado por John Bolton. Mais: não existiu sequer uma reunião na Casa Branca entre os directores departamentais do Conselho de Segurança Nacional, com a incumbência de aconselhar Bolton e o presidente sobre os domínios possivelmente afectados pela reunião de Helsínquia. Mais uma vez, em tese, não há problema algum quando os presidentes americano e russo se reúnem - desde o final da Guerra Fria, para não ir mais longe, todos o fizeram, alguns mais do que uma vez.

O problema é a reunião em si ser apresentada, como publicitou Bolton - que fez carreira a desprezar e a tentar deitar abaixo ditadores - como um feito em si mesmo. Desta forma, a posição em que Trump se colocou não difere muito da alcançada por Kim Jong-um: o encontro vale por si só, independentemente do conteúdo. No mínimo é amadorismo a mais, displicência em barda e sobretudo muito desprezo estratégico pelo sensível momento que se vive na Europa, profundamente ansiosa pelo desenlace da reunião e entalada pela imprevisibilidade comportamental dos senhores Trump e Putin.


Em terceiro, para além de não ter existido qualquer manifestação de vontade política da Casa Branca sobre um ou dois objectivos a atingir, partindo de uma grelha de posições da qual Washington não abdica, nem sequer existe uma agenda para a reunião. Sabíamos, à partida para Singapura, que a desnuclearização e o congelamento de exercícios militares com os sul-coreanos estariam nos pratos da balança negocial.

Soubemos, em anteriores encontros presidenciais, que alinhamentos para a segurança europeia, redução conjunta dos arsenais nucleares, cooperações na frente afegã, ou ainda partilha de informações antiterroristas estiveram no centro das negociações russo-americanas, quase todas elas com resultados construtivos, pese embora as estruturais diferenças geoestratégicas. Hoje, não existe nem agenda, nem uma pré-anunciada grelha de pontos a dirimir, nem sequer a garantia de qualidade estratégica durante o encontro.


Desde logo porque ele está previsto ser preenchido, a maior parte do tempo, apenas com Trump e Putin na sala. Fiona Hill, a conselheira principal de Trump para a Rússia, nem sequer estará no encontro que se seguirá com os chefes da diplomacia e conselheiros de segurança, o que não é habitual na história presidencial. Além disto, não se sabe por onde irá Trump na conversa com Putin e é este leque de arbitrariedade que está a deixar os aliados europeus (sobretudo de Leste) à beira da loucura.

Vai o START, que expirará em 2021, ser prolongado? Vão as tropas, as bases e os exercícios militares americanos na Europa ser reduzidos, revertidos e congelados? A troco de quê? Vai ser aceite como facto consumado a invasão da Crimeia (como o próprio Trump já aflorou), o que na prática reduz as sanções económicas euro-atlânticas a pó? Haverá alguma exigência a Putin sobre o apoio concedido a Assad em coordenação com o Irão, um dos inimigos pródigos de Trump e dos seus aliados no Médio Oriente?

A troco de que é que se fará essa pressão? Da cedência da Crimeia e do Donbas à esfera geopolítica russa? E sobe o assunto mais quente na política americana, as acusações proferidas há dois dias pela investigação liderada por Muller, e que cada vez mais apontam para uma objectiva contaminação de Moscovo à campanha eleitoral americana para benefício político de Trump? Haverá algum sinal de força do presidente americano ou só mais um momento embaraçoso a espelhar o resultado do conluio entre o núcleo duro trumpista e o Kremlin?

Ninguém sabe. Nem mesmo os conselheiros presidenciais ou os diplomatas que ao longo dos anos acompanham de perto esta relação bilateral.

O que temos, então? Basicamente, uma página em branco para ser escrita, de um lado, por um poderoso e experiente político, do outro, por um novo rico que acha poder tratar a geopolítica como quem compra um hotel ou um campo de golfe. Parabéns, senhor Putin, a sua passada nacionalista vai de vento em pompa. E parabéns a todos os trumpistas, que não divergindo muito da natureza do putinismo, têm feito tudo para lhe polir o brilho. Depois não se queixem se o ar ficar mesmo irrespirável.

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