Premium O início do fim?

John McCain mostrou como a dignidade de uma vida não se esfuma na morte. Como defensor das democracias, em particular as europeias e a sua ligação aos interesses permanentes americanos, escolheu Vladimir Kara-Murza, um opositor de Putin já por duas vezes envenenado, para transportar o seu caixão durante as cerimónias na Catedral de Washington. Kara-Murza é um dos principais rostos da oposição russa e lidera a fundação com o nome de Boris Nemtsov, outro dos líderes da oposição russa barbaramente assassinado, numa altura em que expunha a rede de corrupção do círculo de Putin. Com isto McCain diz-nos que a luta das democracias não pode estar reduzida a plebiscitos, mas à defesa de um regime cuja natureza resida na profunda inviolabilidade das liberdades políticas, sociais, de expressão e intervenção, e num respeito inegociável com a separação de poderes. Foi isto que levou McCain a protagonizar a defesa acérrima das transições democráticas na Europa e os alargamentos da NATO como a consolidação desse processo. Por isso nunca se esqueceu da Ucrânia nem da Geórgia e foram constantes as iniciativas que levou a cabo no Senado para que o poder legislativo americano não deixasse cair a política de "porta aberta" da Aliança Atlântica. McCain não via a Rússia como um inimigo, se assim fosse não estava ao lado dos opositores do regime: foi, isso sim, um dos primeiros políticos americanos a perceber como era perigoso confundir a Rússia com Putin, alertando para todos os anátemas que este representa e que, em último lugar, inibem a Rússia de caminhar para a saúde democrática, como aliás merece.

Outra das figuras destacadas nas cerimónias fúnebres de McCain foi Joe Biden. Amigos de partidos diferentes, durante muitos anos colegas de Senado e participantes ativos na formulação das políticas externa e de defesa, a escolha de Biden sinalizou aquilo que McCain procurou tantas vezes seguir: uma lógica bipartidária na política externa que desse músculo e influência decisivas aos EUA no mundo. Tal não queria dizer sintonia permanente, como não aconteceu durante os anos de Bill Clinton nas intervenções na Somália ou na primeira fase da Bósnia até Srebrenica mudar tudo. Ou quando defendia o uso de um hard power avassalador uma vez decidida uma intervenção, como ficou patente no desalinhamento com George W. Bush no Iraque e, sobretudo, na oposição visceral a qualquer política de tortura sobre prisioneiros na luta antiterrorista. Ou, ainda, quando divergiu de Obama na campanha de 2008, sobre a queda de importância da Europa na hierarquia dos interesses globais da América. Só que para McCain, divergência não significava tribalismo e é por isso que na hora de se despedir, olha com orgulho para Obama e profundo desprezo para Trump. Quantas vezes os piores inimigos não estão no mesmo partido.

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Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

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Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.