O dilema chinês

O tribunal de Haia decidiu, está decidido. Certo? Errado. As disputas no mar do Sul da China (e também do Leste) são fonte do maior potencial de atrito entre Estados na atual política internacional e um dos mais complexos de dirimir. Desde logo porque é um prolongamento estratégico da afirmação regional chinesa, incompatível com a decisão de um tribunal não reconhecido por Pequim. Depois porque aceitá-la seria restringir o arco de segurança comercial, energético e logístico em redor das megametrópoles chinesas, programado pela administração chinesa e que assenta na defesa da soberania de 80% das águas territoriais e ilhéus em causa. Por fim seria vergar às intenções de aliados dos EUA (Japão, Filipinas, Vietname), concedendo--lhe a primazia no desbloqueio dos grandes dilemas de segurança asiáticos. Por isto é natural que Pequim tenha enfiado na gaveta a sentença de Haia. A questão é saber se esta postura pode prolongar--se sem gerar reações fortes. O sinal em Manila foi acalmar os ânimos, disponibilizando--se para dialogar com Pequim. Aproveitando a deixa, Washington podia propor de imediato no Conselho de Segurança uma grande convenção regional, sob chapéu da ONU, que encarreirasse as tensões para o plano diplomático multilateral, evitando respostas unilaterais e imprevisíveis entre os intervenientes. Deste ponto de vista, o pivot para o Pacífico que Obama tentou imprimir no seu mandato poderia ter aqui uma nova oportunidade. O problema é que há um dilema chinês em cima do dilema regional. Por um lado, a ascensão de Pequim é vendida como benevolente, construtiva e passa por um momento de esfriamento económico e de maior centralismo político. Por outro, assumir-se como perturbador de águas profundas pode anular a projeção da imagem pretendida, agitar a frente interna e motivar Washington a reforçar a presença militar. Só Xi Jinping pode desmontar este dilema.

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