Hiroxima

Obama foi a Hiroxima homenagear as vítimas da bomba atómica lançada por Truman, em 1945, mas não pediu desculpas. Fazer um lamento sentido por um horror ocorrido há 71 anos não é o mesmo que assumir a responsabilidade de um antecessor. Nem podia ser. Se os atuais líderes começarem a pedir desculpas por decisões que outros tomaram, provavelmente não faziam mais nada. Obama quis mostrar à Ásia que os EUA não são apenas uma grande potência determinante do Pacífico, mas que não está ali para humilhar, rever unilateralmente a história ou incentivar ódios do passado. Este sinal é fundamental para quem quer aumentar a rede de segurança e os fluxos comerciais entre o Índico e o Pacífico. Mais: vincar uma posição diametralmente oposta à da China, para conter a sua hegemonia asiática através de uma diplomacia presencial e pronunciada, num contraste com a perceção da vizinhança que encara a agressividade ascensional chinesa com alarmismo. A outra dimensão importante da visita a Hiroxima está na capacidade que os EUA têm hoje de controlar a proliferação nuclear. Obama iniciou mandato com um propósito irrealista e perigoso: eliminar a prazo todas as armas nucleares no mundo. Irrealista, porque não depende exclusivamente da vontade norte-americana, os russos não vão abdicar da paridade de meios, e a Coreia do Norte não vai decretar a morte do regime porque a Casa Branca quer. Perigosa, porque o anúncio de um falso pacifismo não contribui para a dissuasão militar. Pelo contrário: Washington deixaria de ter mecanismos para lidar com os párias e desestabilizadores internacionais. Por isto é preferível controlar a proliferação pela negociação concertada: reduzindo armamento, obrigando quem não o declara a seguir as regras, e monitorizando de perto quem atua no livre arbítrio. Oito anos depois, Obama deve ter aprendido a lição.

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