E o vencedor é...

No mesmo dia em que 11 estados do Pacífico assinavam no Chile uma versão do TPP sem os EUA, três altos quadros da administração sul-coreana anunciavam ao mundo que Kim Jong-un e Donald Trump iriam encontrar-se no início da primavera. Aparentemente, os dois temas não têm ligação, mas, se quisermos ir um pouco mais além, encontramos um denominador comum: em ambos os casos, os EUA não lideraram nenhum dos processos. E, apesar dessa posição retraída, nenhum país deixou de prosseguir com o que julgava ser melhor para os seus interesses nacionais e regionais. Imagino como estará a administração chinesa a olhar para tudo isto.

Um das medidas que integram este TPP-11 é a redução de tarifas, inclusive para o alumínio e o aço, precisamente o foco da recente decisão de taxar agressivamente as suas importações, tomada pela administração Trump. O sinal é claro: os EUA podem optar por ir a contraciclo das tendências do comércio global, mas nenhum dos estados signatários precisa de ficar refém das decisões unilaterais de Washington. Nem refém nem vítima. Com o Japão e a Coreia do Sul à cabeça deste ímpeto pela articulação e regulação do livre comércio no Pacífico, percebemos até onde vai o alcance da dinâmica: nem os dois mais fiéis aliados asiáticos dos EUA fraquejaram na hora de avançar. Apesar de Pequim estar fora do acordo, posso imaginar como foi recebida a sua assinatura: a hegemonia norte--americana na Ásia tem aqui um grande revés, além de a sua ausência poder abrir uma porta ao interesse chinês no acordo.

Claro que o comércio, a logística e a economia precisam de um enquadramento de estabilidade política e securitária. Quanto maiores os riscos mais ansiedade entra na cadeia comercial, pondo em causa a fluidez das rotas, a previsibilidade das decisões e os benefícios da interdependência. É por isso importante tentar gerir de outra forma o principal foco de insegurança asiática, dado que a ameaça descontrolada que levanta uma Coreia do Norte nuclearizada até aos dentes confere um nível de catastrofismo iminente à região que outras ameaças conhecidas apesar de tudo não acarretam (terrorismo, disputas de fronteiras e recursos naturais). É assim que Seul, mesmo tendo assistido a 14 testes nucleares vindos do Norte só em 2017, optou por dar continuidade à política de abertura peninsular ensaiada entre 1998 e 2008. Diga-se que, à luz do sucesso dessa estratégia, a lição poderia estar mais bem tirada, dado que durante essa década os sul-coreanos canalizaram quase dez mil milhões de dólares só em assistência económica à Coreia do Norte sem que isso tivesse invertido a sua trágica economia ou o seu programa nuclear. Aliás, o atual presidente sul-coreano, Moon Jae--in, era há época um destacado conselheiro presidencial, conhecendo por isso como ninguém as vicissitudes da relação coreana. Mesmo assim, voltou a tentar. E fê--lo sem recurso a enquadramentos multilaterais onde os EUA estivessem presentes ou em liderança. Enviou uma delegação de alto nível a Pyongyang e a Washington, conseguiu articular uma cimeira entre as duas Coreias para abril, e fez de um grande evento desportivo uma nova janela diplomática. O anúncio do encontro entre Kim Jong-un e Trump deve ser visto muito mais como um desenlace dos bons ofícios de Seul do que como um efeito das tiradas agressivas do senhor Trump. Mas não só. Deve igualmente ser visto como um sinal de autonomia estratégica e diplomática conquistada pela Coreia do Sul face ao comportamento do seu aliado americano, o que reforça a minha tese inicial sobre o impacto que está a ter o America First na capacidade dos EUA imporem vontades e roteiros nos termos em que o faziam.

É ainda importante lembrar que este não foi o primeiro convite feito por um líder norte-coreano a um americano. Em 2000, Kim Jong-il convidou Bill Clinton, que optou por não se fazer representar, dando à então secretária de Estado Madeleine Albright o comando da missão. Como a própria já contou, as cedências do regime em relação à desnuclearização foram muito superiores às expectativas levadas por Washington, mas na prática nada mudou. Aliás, é com o mesmo presidente Kim Jong-il que, em 2006, a Coreia do Norte faz o seu primeiro ensaio nuclear. Outro ponto que vale a pena recordar é que Pyongyang tem tentado nos últimos 20 anos, das mais variadas formas, estabelecer contactos com Washington. Não para se renderem ou desistirem do seu programa nuclear, mas para atingirem o objetivo estratégico mais importante para o regime: demonstrar que o seu investimento nuclear conseguiu forçar os EUA a tratá-lo como igual.

É isto que hoje volta a suceder. Kim Jong-un mostrará aos seus súbditos a paridade estatutária com a superpotência e legitima a sua conduta económica, social e militar. Aqueles que estão a atribuir esta cimeira a um triunfo de Trump deviam chegar à conclusão oposta: o triunfo é de Kim. Para além disto, uma cimeira desta importância deveria ser sempre o culminar de um processo de negociação, preferencialmente longe dos holofotes mediáticos, depois de ter sentado à mesa os melhores de cada lado, de diplomatas a conselheiros políticos e militares. Ora, nada disto sucedeu. Nem o Departamento de Estado foi avisado da decisão do presidente nem Trump tem sequer alguém à sua volta familiarizado com a Coreia do Norte, e os únicos que teve perdeu-os: Victor Cha foi empurrado pela linha dura da Casa Branca no processo que o nomearia embaixador em Seul (EUA continuam sem ninguém lá) e Joseph Yun, representante especial da administração para a Coreia do Norte, reformou-se recentemente alegando "razões pessoais". O encontro bilateral anunciado por uma terceira parte tem tudo para valorizar Kim e fazer de Trump o idiota útil.

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