E agora, senhora May?

Se a convocação do brexit já havia sido fruto de uma luta interna dentro do partido conservador, a consolidação de um acordo de saída mantém o drama ali centrado. Mais do que um problema de relacionamento presente e futuro com a UE, o que Theresa May na realidade continua a enfrentar é o espectro de uma crise política no governo britânico a qual, em último caso, pode ser constitucional. Não é o facto de se ter forjado uma solução para a fronteira irlandesa, na prática colocando a Irlanda do Norte num regime de exceção dentro do Reino Unido, que o brexit ficou formalmente decidido. Desde logo, porque não há unanimidade no cabinet. E mesmo que os ministros mais céticos saiam hoje de Downing Street com um sorriso nos lábios, tal não passará de um assomo de cinismo que não traz nenhuma coesão a um governo já por si profundamente desgastado.

Além disso, um acordo consolidado, mesmo que Bruxelas emita fumo branco e tudo se acerte no Conselho Europeu deste mês, tal não significa que venha a ser aprovado em Westminster, recusa que deslaçará de imediato a legitimidade para Theresa May continuar ao leme do brexit. Se isso resulta em eleições antecipadas ou numa reformulação do executivo com o mesmo apoio parlamentar (conservadores e unionistas) é a questão que então se colocará. Até lá, outra frente pode fracionar o governo, não só dividindo ministros mas até os partidos na Câmara dos Comuns: como aceitar modelos de transição, adaptação ou de exceção para a Irlanda do Norte e não para a Escócia, por exemplo, tendo o brexit sido ali derrotado no referendo?

Vai ser difícil não abrir uma caixa de pandora dentro da ordem constitucional do Reino Unido e para lidar com ela serão precisos partidos fortes, consistentes e com autoridade política. Infelizmente, nem conservadores nem trabalhistas preenchem os requisitos mínimos.

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