A hora Xi

Na semana em que o Partido Comunista Chinês deu início à sua 19.ª reunião magna, o presidente Xi Jinping inaugurou os trabalhos com um discurso de três horas e meia. Não foi um divagar de banalidades para mostrar quem é que manda na cúpula do regime quando 75% dos seus membros estão de saída. Não foi, também, um exercício para se bater com as estopadas de Fidel com tiros disparados a um sem-número de inimigos. O que Xi Jinping fez foi dizer ao mundo que o "sonho chinês" entrou na hora Xi: tem um líder com controlo progressivamente absoluto sobre a máquina do Estado, das regiões e das grandes empresas; e tem uma grande estratégia global. Aliás, a China é hoje a única grande potência com interesses universais com uma grande estratégia internacionalista em marcha.

Durante três horas e meia, e com um título capaz de ombrear com alguns preâmbulos constitucionais conhecidos - "Garantir uma vitória decisiva na construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspetos e esforçar-se para o sucesso do socialismo com características chinesas para uma nova era" -, Xi Jinping assumiu objetivos com total transparência e sem ambiguidade. O primeiro foi o início do fim do estatuto de mera grande potência regional (como são a Rússia e a Índia), para se assumir com uma ambição de superpotência universal. Pequim está a ler como mais nenhuma outra capital as oportunidades que a administração Trump abre, e se em Washington este discurso não fizer soar todas as campainhas, então o nível de competência política anda mesmo na lama. Não me enganarei muito se disser que os decisores políticos, militares e económicos chineses conhecem hoje melhor a forma de atuar das suas contrapartes americanas do que o inverso, o que lhes dá toda a vantagem na concretização dos vários tempos e patamares da estratégia nacional.

Segundo, a natureza própria de um capitalismo de Estado inimitável, não importável, mas apetecível em África, América Latina, Ásia Central, Sudeste Asiático e, incrivelmente, também na Europa. Perante todos os desafios que o modelo económico chinês encerra, a verdade é que no último trimestre o PIB cresceu 6,8%. A marca de água dos próximos anos será a posse pelo Estado de cada vez mais grandes empresas, a politização do mercado, o controlo das decisões dos conselhos de administração, a colocação de clientelas, fazendo assim do tecido empresarial um braço formal dos interesses estratégicos no exterior. Em paralelo, basta que os dois polos ideológicos da democracia liberal do último século (EUA e Reino Unido) se virem para um umbiguismo crónico sem noção da falta de cobertura que muitos países sentirão, para que Pequim ou Moscovo se intrometam nas fragilidades estruturais em que muitos podem cair, exercendo assim um domínio totalmente distinto sobre o modelo de sociedade que nesses países tem vigorado. Basta estar atento ao volume de investimentos chineses em curso ou planeados por Pequim para a Polónia, Hungria, República Checa, Roménia, Ucrânia, Macedónia e Moldávia (em infraestruturas, energia, saúde), para percebermos como a geografia e o contexto político são centrais na decisões da administração Xi Jinping.

O terceiro assumiu um aparato militar de classe mundial. Não é possível aplicar uma grande estratégia universal sem uma credibilidade militar associada. Só entre 2000 e 2013, o aumento do investimento militar chinês foi de 362%, dando a Pequim o segundo lugar na hierarquia das potências, tendo no último par de anos aumentado o orçamento da defesa a um nível superior (10%) ao que cresce a economia. No mesmo intervalo de tempo, só a Rússia e a Arábia Saudita se aproximaram (aumentos de 170% e 133% respetivamente), nenhuma com o comportamento chinês, digamos, mais low profile. Esta era pode ter terminado. Além de os separatismos não terem quaisquer contemplações por parte do governo central, tentativas de desestabilizar orientações inflexíveis (Taiwan) tiveram uma abordagem agressiva no discurso, o que levou aos maiores aplausos do Congresso. Não é a defesa da integridade territorial e a não ingerência nos assuntos internos chineses que são novas, é o tom e a acomodação ao momentum de poder desta China universal. E não há nenhum sinal de desinvestimento na defesa nos próximos anos.

Controlar as atuais rotas comerciais marítimas (Índico, Pacífico), estreitos congestionados (Índico e Médio Oriente), novas linhas de circulação (Ártico), carecem de monitorização militar para dotar os fluxos comerciais de segurança (exportações de mercadorias, importações de hidrocarbonetos) e de uma rede de infraestruturas que maximize a influência económica, política e previsivelmente monetária em vários continentes (Nova Rota da Seda marítima e terrestre). Tudo isto faz enorme sentido geopolítico, tem a cadência que a política chinesa exige e olha para o choque tectónico da atual ordem internacional como um manancial de oportunidades de longo prazo.

No seu discurso, Xi Jinping referiu 36 vezes a expressão "nova era". As palavras, no discurso político chinês, têm peso e selo de garantia. Tal como as interrogações que tudo isto levanta. Que potencial de atrito carrega este "sonho chinês"? Que brechas deixa no quadro asiático? Que tensões internas contornarão o Estado securitário? Qual o nível de corrupção suportado? A pirâmide demográfica beneficiará o modelo social e vice-versa? E a carta energética será mesmo balanceada pelos impactos climáticos brutais? A China conhece o Ocidente melhor do que este a conhece. Enquanto não colmatarmos isso continuaremos a ver navios ao largo.

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