A cimeira da fezada

Tem sido penoso assistir ao menu de fezadas e estados de alma do presidente Trump durante e depois da cimeira de Singapura. Sobre os quatro pontos acordados entre as partes, que em boa verdade não passam de um alinhamento de vontades superficial, Trump já veio concluir que "resolveu o problema com a Coreia do Norte", o equivalente ao célebre "missão cumprida" com que George W. Bush celebrou a vitória no Iraque a 1 de maio de 2003. Sobre Kim Jong-un, personagem que de um momento para o outro passou a estar no restrito lote de "grandes líderes" como quem tem "uma grande química" - além de ter manifestado uma admiração perversa com a forma como "o seu [de Kim] povo o ouvia com atenção" e o desejo de que "o meu [de Trump] povo fizesse o mesmo" -, Trump tratou de colocar o líder norte-coreano no pedestal dos infalíveis: "confio nele, sim", "honestamente, penso que ele vai fazer estas coisas [o acordado], mas de qualquer maneira, pelo sim pelo não, "posso ter de vos dizer daqui a seis meses que estive errado", mas isso não será problema, porque, como se diz nestas coisas das armas nucleares e noutros assuntos semelhantes, como nos erros de arbitragem futebolística, "errar é humano".

No fundo, o que Trump diz ao mundo é: olhem, se ele me estiver a enganar, azar, naqueles longos 45 minutos em que estivemos a sós foi de uma honestidade nunca vista. Para quem diz ser um negociador implacável, o que Trump trouxe para casa foi muito pouco. Ou melhor, foi a ideia de que a cimeira foi um fim em si mesmo: o importante era fazê-la, o resto são detalhes sem importância. Isto pode contentar a base eleitoral que continua deslumbrada com Trump (também os há por cá), mas não tranquiliza nenhum dos vizinhos da Coreia do Norte (Coreia do Sul e Japão, sobretudo), além de ter dado à China o lugar que, no final do encontro de Singapura, conquistou com mestria: o de vencedor da cimeira.

Kim Jong-un reuniu-se com o presidente chinês duas vezes nos últimos três meses (em março e maio). Nesses encontros, fundamentais para quebrar a distância pessoal existente desde que Xi Jinping tomou posse (2013), alinharam um roteiro indispensável ao que veio a suceder em Singapura. Para Pequim e Pyongyang o objetivo era só um: obter uma declaração do presidente Trump sobre o congelamento dos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, previstos para o próximo outono. Hoje, sabemos que, ao arrepio de palavras ditas no final de 2017 e do que estava consolidado entre a equipa de Trump, o presidente americano resolveu assegurar publicamente que esse congelamento estava garantido. E assim, sem pré--aviso, estava feita a primeira concessão da cimeira. Para quê? Partimos do princípio de que para acelerar o desejado processo de desnuclearização da Coreia do Norte. Como e quando é que isso será feito é que ninguém sabe. Seul deve ter dormido descansada.

Podemos olhar para este compromisso como o primeiro degrau da suposta desnuclearização. Só que pelo facto de não se saber o modo e o tempo da mesma, é perfeitamente aceitável que Pyongyang, alinhada com Pequim, adie sine die esse desmantelamento em função da exigência de novas concessões norte-americanas. Quais? A retirada das tropas estacionadas na Coreia do Sul e no Japão (80 mil), no que seria o segundo degrau do grande objetivo estratégico partilhado por Kim e Xi: reduzir progressivamente a capacidade militar americana na Ásia-Pacífico a mínimos incapazes de condicionar a ascensão unilateral chinesa na área mais importante para a sua afirmação, o mar do Sul da China, rico em hidrocarbonetos e por onde passa um terço do comércio marítimo mundial. O facto de a soberania nas suas águas ser altamente disputada por vários países vizinhos pode até ser um fator acrescido de confirmação desse poder absoluto chinês, impondo a vontade de forma magnânima sobre algumas das mais importantes nações asiáticas, as quais por sua vez deixaram de contar com a capacidade dos EUA em protegê-las e equilibrar o poder de Pequim. Estou a fazer uma projeção irrealista? Ao ouvir a cacofonia americana em Singapura - Trump a defender o regresso a casa das tropas, diplomatas e militares a negar -, é mais uma hipótese que só cria incerteza e desproteção em Seul e em Tóquio. Ou seja, tirando o momento de desanuviamento bilateral criado em Singapura, o resto só abriu novos receios na região em função da postura norte-americana.

Por fim, vale a pena olhar exatamente para este desanuviamento, que em boa verdade ninguém pode garantir quanto tempo durará. Mas, mais uma vez, o principal beneficiário é Pequim, que anula um foco de problemas nas suas fronteiras. Como era público e notório, até nas votações chinesas no Conselho de Segurança, o comportamento de Pyongyang era um embaraço e uma dor de cabeça para a China, que via na agressividade militar de Kim a justificação perfeita para os EUA manterem e até reforçarem a sua capacidade militar no Sudeste Asiático. A promessa de desnuclearização, precisamente por ser superficial e alinhada com Pequim, não enfraquece os dois regimes, dado que Pyongyang pode, ao abrigo de tratado bilateral com a China, usufruir da sua proteção nuclear. Creio até que também Moscovo não lhe faltará em caso extremo. Além disto, Xi Jinping consegue exibir uma renovada influência sobre Pyongyang, abrir uma janela na redução da presença militar americana nas proximidades e, no contexto das tensões comerciais, ainda ver Trump consolidar os 11 signatários do Tratado Transpacífico (sem regresso à vista de Washington) e empurrar a UE para longe da influência americana. É por isso que, durante a reunião do G7, quem brindava ao sucesso não eram Merkel e Trump, mas Vladimir Putin e Xi Jinping em cimeira paralela. O que Donald Trump veio fazer em Singapura foi prolongar esse brinde por tempo indeterminado.

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João Gobern

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