A China aqui tão perto

Nesta semana assistimos a uma dupla coroação no coração asiático. Em Pequim, Xi Jinping viu aprovada por unanimidade a inscrição do seu "socialismo de características chinesas para uma nova era" nos estatutos do Partido Comunista. Sem nenhum sucessor evidente à vista e com a maioria dos cinco membros da cúpula do Politburo sem um passado de proximidade ao presidente, Xi Jinping deu três sinais claros ao mundo.

Primeiro, o poder máximo passou da lógica de "liderança coletiva", inspirada nas diretrizes de Deng Xiaoping, para uma liderança unipessoal assertiva. Segundo, apesar da limitação de dois mandatos, qualquer tentativa de projetar uma sucessão fora do seu controlo político tem os dias contados. A composição da cúpula do partido tem precisamente a intenção de não dar margem a oposições internas fora do radar do presidente: é ele quem manda, controla e desenha do topo até à base a grande estratégia da China para o futuro. Terceiro, é reconhecido a Xi Jinping um pensamento estratégico capaz de marcar o programa do partido e traçar o quadro de atuação interno e externo a longo prazo. Ao atingir isto, Xi entrou no patamar contemporâneo da política chinesa apenas pisado por Mao e Deng.

A China de Xi Jinping vai, por isso, obrigar as outras grandes potências internacionais a fazer duas coisas rapidamente: estudar e acompanhar a par e passo tudo o que está a ser feito na China e pela China, e que para tal precisam de outro acesso a canais diplomáticos, políticos e empresariais; e adotar, de forma multilateral ou não, uma estratégia de acomodação de interesses mútuos, mas também de afirmação quando os mesmos não corresponderem. No caso europeu, salvo algumas exceções, nem uma nem outra estão a ser feitas de forma cuidada. Dou um exemplo concreto: o novo responsável na cúpula do Politburo com o pelouro da "ideologia, propaganda e recursos humanos" era speechwriter de Xi Jinping e o único na história do cargo formado no estrangeiro (Berkeley), o que diz muito sobre como a administração chinesa tem acumulado conhecimento alheio para ser usado em proveito próprio. Duvido de que algum membro com poder nos vários governos ocidentais tenha estudado na China ou cultivado um conhecimento aprofundado sobre o país. As elites chinesas têm-no feito sobre o Ocidente.

Outro ponto fundamental que resulta da apoteose de Xi Jinping é a prioridade que está a dar à organização que coordena e monitoriza toda a estratégia de soft power interna e externa da China, seja através da diáspora ou de focos de investimento relevantes. A Frente Unida, nome dessa megaestrutura com manual escrito levado à letra, tem a missão de projetar globalmente as diretrizes de Xi através de todos os canais disponíveis, sejam universidades, associações culturais, empresariais, religiosas ou meios de informação. Em paralelo à consolidação da rede de negócios e investimentos que está em marcha em vários continentes, Pequim quer trabalhar o acolhimento local da sua presença de forma sustentada, coerentemente orientada e diplomaticamente amistosa. Mas há quem não compre a amabilidade.

É aqui que chegamos à segunda coroação da semana: a terceira vitória de Shinzo Abe no Japão, o que pode fazer dele o primeiro-ministro com mais anos no cargo no pós-guerra. Com popularidade baixa, convocou há um mês eleições antecipadas e, beneficiando dos erros da oposição, acabou por manter o controlo do Parlamento com vista à reforma constitucional que alterará o estatuto híbrido de "potência pacifista", ambiguidade que tem permitido a Tóquio missões militares no estrangeiro e em teatros de risco elevado, como é o caso do Sudão do Sul, cuja exposição levou em julho à queda do ministro da Defesa japonês. Ou seja, a normalização do Japão não é só uma questão de estatuto internacional, defesa da soberania ameaçada, mas um fator de tensão na política interna. Ora, ao validarem esta normalização, reforçando Abe, os japoneses querem também responder com outro peso à avassaladora grande estratégia chinesa. Em Tóquio, não é só a ameaça norte-coreana que paira nos céus, a ascensão absoluta de Xi Jinping levanta inquietações permanentes: o uso de tanto poder pode trazer disfunções graves no Sudeste Asiático.

Na verdade, ninguém sabe se assim será, mas o mero risco político associado ao ambiente de insegurança pode ter impacto na economia regional. Isto não é um detalhe, até porque a ordem asiática tem focos de choque permanentes para dar e vender, além de uma hegemonia mal acolhida e geradora de equilíbrios. E se a crise asiática do final dos anos 1990 foi uma das causas da chegada ao poder de Putin - visto como o homem certo para travar a hecatombe que já vinha assolando a economia russa, imagine-se o que seria hoje um mar de choques financeiros e militares nessa região, no meio do novelo de efeitos diretos que esse absolutismo putinista trouxe à Europa: separatismos, desinformação em massa, invasões territoriais, ataques cibernéticos, incentivos aos vários populismos, fomento de desarticulação na UE. Putin não é a causa de todos os males, mas é sem dúvida o grande agitador desta Europa.

Não querendo ser excessivamente alarmista, estamos a assistir à concentração de poder dos líderes de duas grandes potências com capacidade para influenciar a política europeia. Putin já disse ao que vinha: partir a Europa em cacos. O brexit e a situação em Espanha são corolários dessa estratégia. Xi diz que vem com os braços abertos, cheque na mão e o coração cheio. Sejamos céticos. Tenhamos dúvidas. Olhemos para o que pode vir depois disso. Se os europeus já estão desorientados ao lidar com Moscovo, imaginem se tiverem de lhe juntar Pequim.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.