A afirmação chinesa. Ou não

O congestionamento marítimo, a disputa soberanista no Pacífico e no Índico, o equilíbrio entre mercado interno e exportações, e a necessidade de alimentar energeticamente um alto crescimento económico levaram a China a pensar a sua política externa. Para organizar estrategicamente este percurso, a administração chinesa recriou a velha Rota da Seda de forma a potenciar o seu charme diplomático e contornar os imponderáveis na vizinhança próxima. Assim, em 2013, anunciou o programa mais ambicioso de diplomacia económica desde o Plano Marshall, abrangendo 65 países e 4,5 mil milhões de pessoas, equivalente a 65% da população mundial. A Nova Rota da Seda quer fazer da Eurásia o verdadeiro centro político e económico global, desviando o Atlântico do centro de gravidade nas próximas décadas. A rota terrestre sairá de Xi"an, na China, de onde partia a original Rota da Seda há dois mil anos, e percorrerá um corredor de infraestruturas rodoviárias e ferroviárias entre Urumki (capital da província chinesa de Xinjiang), Almaty (Cazaquistão), Bichkek (Quirguistão), Samarkand (Usbequistão), Dushanbe (Tajiquistão), Teerão (Irão), Istambul (Turquia), Moscovo (Rússia), Minsk (Bielorrússia) e Roterdão (Holanda). A rota marítima privilegiará grandes infraestruturas portuárias de suporte logístico ao comércio marítimo, partindo de Fuzhou, na costa chinesa do Pacífico, seguindo para Guangzhou e Haikou, no disputado mar do Sul da China, Hong Kong, Hanói (Vietname), Kuala Lumpur (Malásia), Jacarta (Indonésia), Colombo (Sri Lanka), Nairobi (Quénia), Atenas (Grécia) e Veneza (Itália).

A Nova Rota da Seda expõe o projeto geopolítico alternativo à primazia de Washington nas próximas décadas. Entre os dois mundos está a UE, verdadeiro "império do meio"

Estrutural como hub no Mediterrâneo é o porto do Pireu, na Grécia, praticamente já controlado por capital chinês e uma plataforma de distribuição comercial para toda a orla sul da Europa Ocidental, central e balcânica, caminhando para o centro europeu, para o Norte de África, Ásia Central e Médio Oriente.Mas a Nova Rota da Seda carrega outros objetivos. Primeiro, tornar a moeda chinesa bem mais presente nas trocas comerciais, equilibrando-se ao dólar como moeda-farol da economia mundial. Segundo, abrir mercados de exportação às mercadorias chinesas e aproveitar a tipologia de regime que prevalece na Ásia Central, em África e no Médio Oriente para reforçar o "sonho chinês" como modelo político atrativo nas próximas décadas. Terceiro, estruturar a diplomacia chinesa num arco que percorre as civilizações árabe, persa, cristã e hindu, fazendo de Pequim uma plataforma de convergência política. A grande questão é saber se esta expansão terá apenas efeitos positivos nos pontos geográficos que percorrer ou se irá gerar antagonismos locais ou até uma corrida aos equilíbrios por Estados descontentes com a ambição chinesa. Mais uma vez, o potencial de atrito é grande e merece atenção, fazendo também da Nova Rota da Seda um convite às turbulências interestadual e intra-estadual ou ao crescimento de ameaças como o terrorismo e a pirataria. Na Birmânia, viram-se revoltas contra o investimento na rede ferroviária entre Kyaukpyu (na baía de Bengala) e a cidade chinesa de Kunming. No Sri Lanka, o novo governo tem vindo a contestar os termos de mais de 30 acordos com Pequim, sobretudo os que tocam no porto de Colombo, vital na ligação entre o Sudeste Asiático e a costa africana, seguindo para o Mediterrâneo via Suez. Além disso, os termos das relações com a Rússia e a Índia são uma incógnita, dadas as disputas territoriais não dirimidas (fronteira sino-indiana), a noção de cerco negativo que existe em Nova Deli (Sri Lanka e Paquistão), e a ideia em Moscovo de que a China encerra um misto de ameaça (demográfica e militar), oportunidade (energética e comercial) e concorrência, tendo em conta a União Euro-Asiática projetada pela Rússia e importantes países, como o Cazaquistão, também na órbita de Pequim. A Nova Rota da Seda expõe o projeto geopolítico alternativo à primazia de Washington nas próximas décadas. Se regressarmos ao mapa, entre os dois mundos está a UE, verdadeiro "império do meio" com a agravante de olhar a Rússia como elemento de perturbação constante. As capitais europeias não precisam de ver neste grande xadrez um desafio de soma nula, mas serão obrigadas a fazer opções: politicamente estão próximas do Atlântico, mas a oportunidade financeira pode pender para a Eurásia. Se a primeira traz estabilidade e coesão ao Ocidente, a segunda tem tudo para favorecer as posições de Pequim, Moscovo e da vaga nacionalista que corrói a Europa. Vivemos tempos decisivos no Ocidente mas a China está a perceber isso melhor do que nós.

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