Dia seguinte em Mossul e Aleppo

Se a guerra continua possível, a paz permanece improvável

É provável que a reconquista de Mossul seja mais demorada do que a de Fallujah, tomada em menos de quatro semanas pelo exército iraquiano ao ISIS no passado mês de junho. Bem mais realista é apontar Mossul como um capítulo militarmente decisivo neste ciclo de recuperação territorial no Iraque, no sentido em que o ISIS perderá o controlo do seu quartel-general local e o último reduto estratégico ao ficar sem os comandos da segunda cidade do país e da sua maior barragem. Além disto, os terroristas do ISIS vão ser obrigados, entre dois outros caminhos, a reforçar o contingente na Síria se quiserem proteger Raqqa e outras possessões ao longo do Eufrates. Isto sem pôr em causa o regresso de muitos à jihad na Europa e à dispersão por outros potenciais califados no Norte de África, Ásia Central e Sudeste Asiático. Trabalho não lhes faltará e pode dar-se o caso de a perda de Mossul vir a dificultar ainda mais a monitorização do fluxo de terroristas e do seu financiamento, tendo em conta a amplitude do raio de ação que assumirão.

De qualquer forma, do ponto de vista militar, Mossul é um marco na remontada antiterrorista no Iraque, o que não é o mesmo que dizer que o será de um ângulo político. E aqui é importante fazer um paralelismo com o que está a acontecer em Aleppo, decisivo para a consolidação de Assad no cordão territorial entre Latáquia, Aleppo e Idlib e na sua estratégia de dizimar (o termo é mesmo este) qualquer vestígio de milícias sunitas. Porque não falo em terroristas do ISIS? Porque na hierarquia de prioridades do triângulo Assad-Rússia-Irão, minar o ISIS nunca foi tão importante como eliminar a ameaça sunita, ainda para mais quando esta é altamente patrocinada pelas duas grandes potências sunitas da região, a Turquia e a Arábia Saudita, ambas hostis a Damasco. Aleppo, tal como Mossul, é um marco militarmente relevante nas ambições do regime, mas não encerra os mesmos dilemas políticos que a grande cidade do Norte do Iraque. Porquê? Por existir um só vencedor, nesse caso, uma coligação xiita-russa sem rival e com concertação de interesses afinada. Aleppo é uma tragédia humana sem termo, coloca a ONU entre a espada e a parede, mas no dia seguinte à sua tomada pelas tropas sírias o resultado será evidente para todos: Assad venceu.

Em Mossul não existirá um vencedor, mas vários. Aliás, isto é já evidente na mescla operacional em marcha, com 20/30 mil tropas iraquianas maioritariamente xiitas, cinco/seis mil peshmerga, o apoio da aviação americana e, sem ser convidada, da Turquia, tropas especiais americanas, francesas, britânicas e iranianas, e milícias sunitas apoiadas, entre outros, por Ancara. Ou seja, não custa muito perceber a confusão que vai ser o dia seguinte à reconquista de Mossul. Se o exército iraquiano for dono e senhor da cidade, isso pode levar o governo de Bagdad a condicionar as intenções de partilha de poder com os sunitas numa cidade historicamente interétnica. E num clima de avanços e domínios xiitas na Síria e no Iraque, a perceção sunita pode ser de recurso imediato às armas e ao clima que marcou a guerra civil na última década.

Mas há mais. A intenção americana é meramente militar, isto é, eliminar o ISIS onde e no que puder, mas sem um plano político estrategicamente montado para influenciar o destino do Iraque (e muito menos o da Síria). E com uma administração em final de mandato, resta perceber o que pode fazer a próxima. Se Hillary vencer, Washington dará ainda mais retaguarda aos curdos no terreno com a defesa de uma zona de exclusão aérea limitada a norte, o que implica fortalecê-los politicamente e abrir uma ferida profunda com a Turquia. Se Trump ganhar, haverá provavelmente robustez de meios aéreos anti-ISIS, embora a coordenação com a cadeia militar, o Congresso e os aliados regionais seja uma imensa incógnita.

Esta antecipação de problemas entronca ainda em dois outros fatores. Por um lado, no exercício putinista de poder de Erdogan, cada vez mais incompatível com os critérios de pertença à NATO e de um roteiro de adesão à UE. À medida que a agressividade externa for contribuindo para a sua sustentabilidade interna (como acontece com Putin), o fosso com as duas organizações será mais evidente. Por outro lado, o grande objetivo da Turquia é controlar duas zonas-tampão no Norte da Síria e do Iraque para travar o avanço curdo. Aliás, mesmo depois de o primeiro-ministro iraquiano ter pedido ao Conselho de Segurança que considerasse a Turquia uma "força ocupante" no Iraque, a aviação turca avançou em Mossul potenciando a base que detém a 30 quilómetros da cidade (em Bashiqa), tanto a contragosto de Bagdad como de Teerão. O futuro deste triângulo é outro dos grandes dilemas do dia seguinte à reconquista de Mossul.

Em tese, encurtar o raio de ação dos terroristas é positivo em qualquer parte do mundo. Mas para ter eficácia duradoura precisa de acautelar as sucessivas fases do processo. Não basta por isso rejubilar com a formatação de uma coligação de vontades suficientemente pragmática para levar a cabo uma missão militar, porque o dia seguinte à tomada de Mossul pode ser tão caótico como o anterior. Se a guerra continua possível, a paz permanece improvável.

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