Simplex e proximidade nas Laranjeiras

Um dia de Junho. Dias depois da organização do Festival da Eurovisão, ainda os portugueses estão felizes com a sua modernidade. Dias antes do início do Campeonato do Mundo de futebol, no qual Portugal participa após um enorme esforço de talento. Ao mesmo tempo, no Terreiro do Paço, um zepelim anuncia no céu mais um avanço do Simplex na humanização dos serviços públicos.

Na Loja do Cidadão das Laranjeiras, em Lisboa, às oito da manhã, as filas de espera contam com umas centenas de cidadãos de todas as cores, feitios e idades. Alguns chegaram às cinco e meia, para marcar vez. Outros às sete, para tirar a senha. Quando a Loja abre, há longas filas de pessoas. Algumas já não serão atendidas nesse dia.

A Loja, realização de um governo socialista, logo adoptada por todos os governos desde há 20 anos, poderia ter simplificado a vida a milhões de pessoas. Uma só ida para resolver vários problemas. Alta eficiência. Absoluta coordenação entre serviços e total comunicabilidade entre instituições, dizem as leis e a propaganda. Rapidez e prontidão. O cidadão pode ali tratar da Segurança Social, do Cartão do Cidadão, do SEF, dos papéis para casar, do passaporte, da ADSE, da Carta de condução, do registo criminal, das pensões, dos impostos, das certidões de registo civil e ainda da EDP, da NOS, dos CTT, da CGD, da Via Verde... Foram numerosos os benefícios. Há testemunhos a demonstrar os progressos conseguidos. Mas, como tantas vezes acontece, a rotina e a propaganda levam a melhor. Uma visita às Laranjeiras dá o sentido da realidade. A miséria institucional está à espreita.

Depois de horas de espera na rua, os cidadãos obtêm as senhas. Quem estava ali desde as 07.00, só às 09.10 obteve senhas com números de 95 a 150, conforme os serviços. Quem tentou às 10.00 já não conseguiu! Como era sexta-feira, "venha segunda"! Não há maneira de obter, dias antes, as senhas com datas. Por vezes, são precisas três horas de espera só para saber o que é preciso.

Há gente a mais. Poucos funcionários para aquela gente toda. Pessoas sentadas no chão. Muitas de pé. Não há cadeiras que cheguem. Nem espaço. Em dia de chuva e frio ou de calor a 30 oC a situação é aflitiva.

É frequente haver problemas de tradução, de compreensão e de literacia. Em salas com centenas de pessoas, mais de metade são estrangeiros. Africanos, árabes, paquistaneses, chineses, tailandeses e o mais que se queira. Muitos brasileiros. Da Europa Oriental já há poucos.

Em certos guichés, como no da Segurança Social, para cerca de cem pessoas, há dois funcionários, uma para o atendimento geral, outro para os prioritários (doentes, idosos, deficientes, grávidas...). Duas horas depois, há três funcionários para o atendimento geral, um para os prioritários. E mais pessoas à espera. Às 10.20, foi chamada a senha A034. Às 11.58, a A062. Ainda faltam 90!

Em poucas horas os funcionários ficam exaustos e nervosos. Uns mal-dispostos, outros desesperados. Os cidadãos também. Seguir os números das senhas permite perceber quanto tempo de espera se tem diante de si. Quem chegou às 07.00 e obteve senha às 09.10 foi recebido às 14.50!

Na net não há indicações sobre o que é necessário preparar, o que faz que muitas pessoas, depois de passarem horas à espera, fiquem a saber que têm de voltar. Como fazem os que trabalham com horários rígidos e não têm folga? E os que não têm em casa uma reformada, um velhote ou um desempregado para tratar destas coisas?

Os grandes sistemas tecnocráticos sustentáveis e as plataformas digitais ultramodernas, todos nossos amigos, todos de grande proximidade, têm o pequeno defeito de não perceber que há gente no fim da linha, que há pessoas de carne e osso, por vezes com pouca cultura e menos escolaridade, outras vezes com escola e leitura, a quem estes sistemas nada dizem. São pessoas que pedem ajuda. Pessoas a quem as Laranjeiras trouxeram promessas. Mas que, sem humanidade, não conseguem derrubar os muros da desigualdade. Pior: da indiferença.

As minhas fotografias

Turistas em fila de espera, Martim Moniz, Lisboa. Foi há pouco tempo, três anos, e era assim. Os eléctri-cos, designadamente o 28, estavam em ascensão. O turismo também. Muitos "amarelos" estavam já destruídos, abandonados, vendidos... Mas ainda sobravam os suficientes para a ressurreição. Hoje, não há eléctrico que não esteja sempre esgotado, cheio, à cunha. E muita fila de espera. Em Portugal (e noutros países imprevidentes, deve dizer-se...) é sempre assim: algo com êxito? Fila de espera. Uma coisa interessante? Fila de espera. Cuidado de saúde, segurança social, um procedimento administrativo, uma certidão? Fila de espera. O problema é que as filas de espera para a Arena e o Rock in Rio, por exemplo, são facultativas e dependem da escolha de cada um. Enquanto as filas de espera para os transportes públicos, a Segurança Social e o centro de saúde são necessidades, frequentemente urgências e muitas vezes desespero.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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