Os inimigos imaginários do PSD e do CDS

É comum, em criança, ter-se um amigo imaginário. Aquele com quem brincamos durante horas, a quem confessamos o inconfessável e que está sempre lá, aconteça o que acontecer. Na política ­­- como no futebol -, quando as coisas começam a correr mal, inventam-se inimigos imaginários. A tática é muito antiga e funciona, normalmente, como manobra de último recurso quando alguém está na mó de baixo e precisa de fazer prova de vida.

O inimigo imaginário permite a vitimização. Nem sempre resulta, mas permite, pelo menos, ganhar tempo e espaço. É assim que os presidentes dos clubes reagem quando os resultados das equipas não aparecem. É assim que os políticos funcionam quando começam a perder a mão no partido, quando perdem eleições ou quando as sondagens não lhes são favoráveis. E é isso que está a acontecer, neste momento, com o centro-direita em Portugal.

Rui Rio, que é um especialista nesta arte, sempre se orgulhou de ser um político que se galvaniza perante as adversidades. E é por isso que não lhe bastam os inimigos que tem, precisa sempre de inventar mais uns quantos, para se poder agigantar ainda mais. Foi assim no Porto, está a ser assim no país. Aos adversários internos, Rio junta, normalmente, os jornalistas, os comentadores, as empresas de sondagens, os magistrados, as corporações. Tudo parece servir-lhe como inimigo.

Às vezes, é vê-lo esbracejar no vazio, como se estivesse a lutar, aguerrido, contra uma multidão que só ele vê. As veias da garganta dilatam-se sempre que deita cá para fora toda a sua indignação com a parcialidade de uns, os interesses de outros ou a hipocrisia de tantos. É essa a adrenalina - e a estratégia - de Rio e nós temos de respeitar.

O centro-direita em Portugal está completamente desorientado, sem estratégia e sem uma mensagem clara que o eleitorado compreenda

A novidade esta semana é que o CDS parece decidido a disputar alguns dos inimigos imaginários do atual PSD e ainda inventou mais uns quantos pelo caminho. De repente, está tudo em causa: a liberdade de imprensa, a democracia e até o ar puro que respiramos. O drama, o horror, a política do medo, a fuga para a frente. Vem aí um diabo travestido.

O problema desta estratégia é que ela não disfarça o mais importante. O centro-direita em Portugal está completamente desorientado, sem estratégia e sem uma mensagem clara que o eleitorado compreenda e, sobretudo, que saiba distinguir como alternativa.

Nos últimos quatro anos, PSD e CDS foram vítimas de um autêntico saque por parte geringonça: roubou-lhes o discurso das contas certas, do crescimento económico, do desemprego, da confiança dos investidores e, pior ainda, da estabilidade política.

O que sobra ou é curto ou é assunto que queima. Porque é que o centro-direita tem dificuldade em convencer o eleitorado de que uma economia mais liberal produz melhores resultados? Porque não o conseguiu demonstrar no passado. Porque é que o PSD e o CDS têm dificuldade em ser convincentes nas críticas que fazem ao caos que se vive nos serviços públicos? Porque toda a gente percebe que esse caos não começou a ser construído há quatro anos, vem de trás. Porque é que o discurso de um Estado mínimo já não funciona? Porque o PSD e CDS exageraram nas privatizações e as consequências estão aí, bem à vista de todos.

PSD e CDS podem continuar a criar inimigos imaginários à vontade, mas, a partir do dia 7 de outubro, as justificações vão ter de ser outras

Pior: os últimos quatro anos foram completamente desperdiçados pelo centro-direita. Os primeiros dois foram à espera de um diabo que nunca apareceu. Os restantes foram a correr atrás do prejuízo, sem estratégia e sem rumo. Assunção Cristas ainda teve um balão de oxigénio nas autárquicas, mas, claramente, deixou-se inebriar e acabou a desperdiçá-lo. Rui Rio nem isso teve. Se é verdade que os críticos internos não lhe deram um minuto de sossego, não é menos verdade que foi o próprio Rio que abdicou do seu estado de graça quando achou que podia vencer as eleições sozinho. Contra tudo e contra todos, como ele gosta.

O problema de Rui Rio já não é ter razão no que defende para o país e para o partido. Porque tem razão em muita coisa. É perder-se na mensagem para atirar pedras aos críticos, a quem chama "hipócritas" porque lhe aparecem na campanha, quando ele próprio, em 2015, sendo um crítico confesso de Passos Coelho, apareceu ao lado do então líder do partido para apoiar o PSD e dar o tal "sinal de unidade" que ele agora tanto critica. O problema de Rui Rio foi ter aceitado fazer um pacto com o diabo no último conselho nacional, para vencer o despique com Luís Montenegro, aceitando, com isso, colocar nas listas pessoas que ele nunca na vida teria escolhido. O problema de Rui Rio é que não conseguiu até agora explicar ao eleitorado em que é que se distingue de António Costa, quando se orgulha de ter, ele próprio, um "Mário Centeno".

Aqui chegado, a esta encruzilhada, o centro-direita corre grandes riscos nestas legislativas. E isso assusta, naturalmente. Mesmo que o resultado final não seja tão catastrófico como algumas sondagens mostram - e eu acho que não vai ser - a ressaca, depois das eleições, não vai durar apenas um dia. Vai ser longa. Vai ser feia.

Por isso, PSD e CDS podem continuar a criar inimigos imaginários à vontade, mas, a partir do dia 7 de outubro, as justificações vão ter de ser outras. Já não chega culpar os jornalistas, os comentadores e as empresas de sondagens. A partir de 7 de outubro, os inimigos imaginários vão ter de ser substituídos por responsáveis políticos.

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