O cheiro nauseabundo das agências de rating

A excitação nacional com a saída de Portugal do nível lixo, decidida pela Standard & Poor's, é apenas mais uma prova de que não aprendemos nada com a maior crise financeira dos últimos anos.

Quando, em 2011, as agências de rating decidiram mergulhar o país na lama e ficaram lá com a mão, sem nos permitir levantar a cabeça, Portugal insurgiu-se. Numa primeira fase, apareceram os sabichões que diziam que não valia a pena criticar as agências de rating, que isso não resolvia nada. Numa segunda fase, a Europa começou a ensaiar a discussão sobre uma agência de notação europeia, como resposta às perversidades das três maiores agências de rating, mas a conversa morreu rapidamente. E numa terceira fase, já na ressaca da crise, foi ver e ouvir os mesmos sabichões a pedir a todos os santinhos para que as agências de rating reconhecessem os esforços de Portugal e voltassem a subir-nos o rating.

Recordemos, então, o que são estas agências, nomeadamente a Standard & Poor's. São empresas de direito privado, financiadas por outras empresas, bancos e Estados, às quais elas depois dão notas, como na escola. Essas notas não dependem de qualquer teste ou exame. Dependem de critérios que ninguém conhece, mas que, alegadamente, prendem-se com o binómio "sustentabilidade das contas" e "potencial de crescimento". São avaliações de risco que servem de barómetro aos investidores. Com a crise financeira que rebentou em 2008, ficámos todos a saber que estas agências davam nota máxima, o famoso triple A, a bancos que estavam, afinal, falidos. A Estados que estavam, afinal, falidos. A empresas que estavam, afinal, falidas.

Quase dez anos depois, voltámos, como no Monopólio, à casa da partida. Já todos nos esquecemos do que aprendemos sobre as agências de rating, já todos deixámos cair a ideia de criar uma entidade independente que avalie devidamente as contas de um banco ou de um país e já somos as pessoas mais felizes do mundo porque a Standard & Poor's nos retirou do lixo.

Fosse esta a única lição que ficou por aprender com a crise e nada disto seria tão dramático. A crise de 2008 resultou, em grande medida, de uma economia mundial assente em dívida, sem sustentação e com pés de barro. De um mundo que tinha, e tem, uma dívida muito superior àquilo que produz. O jogo é perverso, mas permitiu enriquecer uns quantos e deixar milhões na miséria.

Não aprender nada com o que aconteceu é um erro histórico que pode custar o futuro a várias gerações. A crise de 2008 veio demonstrar que estamos todos a descontar para uma Previdência falida. Que o dinheiro que falta nos salários das pessoas, afinal, existe mas está nas offshore de uns quantos. Que a falta de produtividade, chavão tão caro e repetido por uma classe política medíocre, não passa disso mesmo: um chavão que pretende disfarçar a falta de coragem política. Coragem para mudar este paradigma, para assumir que é a política que manda na economia e não o contrário.

É aqui que as agências de rating se movimentam. Indiferentes a tudo menos ao dinheiro, elas compram e vendem políticos e sabichões um pouco por todo o mundo, elevam aos píncaros quem lhes interessa e afundam (olhem para a Grécia e, já agora, para Portugal) quem não lhes interessa. Elas são o lixo mais nauseabundo de um paradigma económico irracional, injusto e que continua a fazer vítimas um pouco por todo o mundo.

Quase dez anos depois, eis-nos no mesmo sítio. Eis, em Portugal, o primeiro-ministro e o líder do principal partido da oposição a tentarem capitalizar os méritos de uma avaliação que nenhum deles compreende. Isto apesar de nada de substancial ter mudado na economia nacional e mundial. De nenhuma reforma digna desse nome ter sido feita. Hoje como ontem, o principal objetivo dos Estados continua a ser o acesso aos mercados para poderem endividar-se só mais um bocadinho. Os bancos, ainda mal refeitos do tsunami que os engoliu, voltaram ao business as usual. E nós voltámos a ficar muito contentes porque saímos do nível lixo. Somos incríveis.

P.S. Passaram três meses desde a tragédia de Pedrógão Grande e a tragédia prossegue. Uma demissão na Autoridade de Proteção Civil (ainda que por questões que nada têm que ver com o caso) e zero conclusões sobre o que se passou. Talvez depois das autárquicas a ministra da Administração Interna se digne a explicar alguma coisa. Ou meter a mão na consciência. Talvez. Também, qual é a pressa? Afinal, só morreram 64 pessoas.

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