O ministro Marta Soares

Às quatro da manhã, eu e o Jorge estávamos literalmente cercados pelas chamas. Entalados entre uma montanha consumida pelo fogo e uma aldeia onde as casas pareciam cabeças de fósforo que acendiam à primeira fagulha caída do céu. São Pedro do Sul estava a arder há cinco dias consecutivos e os bombeiros que chegavam de todo o país eram curtos para tanto fogo. Para tanto desespero.

O jipe do comando apanhou-nos no meio de uma estrada apenas iluminada pelo lume. Parou, abriu-se uma porta e ouvimos uma voz lá de dentro gritar: "Entrem, entrem." Não me recordo do nome dele, mas não me esqueço daquela noite. Nem eu, nem o Jorge, nem provavelmente centenas de colegas meus que já fizeram a cobertura de incêndios ou os milhares de pessoas neste país que já foram, um dia, salvos pelos bombeiros.

É por experiências como esta e como outras que vivi que não confundo a árvore com a floresta. Que faço questão de distinguir os bombeiros de quem os representa. Mesmo tendo consciência de que eles também são responsáveis pelas escolhas que fazem e pelas pessoas que escolhem para falar em nome deles.

Jaime Marta Soares, presidente da Liga de Bombeiros, não é o protótipo daquilo a que vulgarmente chamamos de pequeno poder. Pelo contrário, ele simboliza, há muitos anos, um poder enorme que lhe foi "concedido" por aqueles que, tendo nas mãos o verdadeiro poder, decidiram abdicar dele. Por displicência e, sobretudo, por incompetência, o Estado deixou-se manietar por um ex-dinossauro autárquico, a quem a comunicação social dá palco pela controvérsia que provoca de cada vez que abre a boca. Fossem as palavras de Marta Soares apenas pólvora seca para alimentar bons títulos e o país não estaria em 2018 a rever um filme a que assiste todos os anos, com consequências gravíssimas.

Jaime Marta Soares não se limita a representar os interesses dos bombeiros. Ele manda neles, na Proteção Civil e no governo. Recorrendo muitas vezes à chantagem e outras tantas à boçalidade, não há ministro que não fique em sentido perante os murros na mesa que dá. O ex-comandante da Proteção Civil, António Paixão, que o diga. Cinco meses num cargo de confiança política e é deixado cair pelos que o escolheram e depois se encolheram perante a gritaria e o arregalar de olhos do presidente da Liga de Bombeiros.

O novo comandante, José Duarte da Costa, que se prepare. Marta Soares - que é contra a escolha de qualquer pessoa para o comando da proteção civil que não venha dos bombeiros - já veio elogiar-lhe o currículo e a personalidade, numa espécie de teste para perceber se o consegue manipular a seu belo prazer. Se o conseguir, talvez ele sobreviva no cargo durante algum tempo. Caso contrário, arrisca-se a ter o mesmo destino de todos os antecessores. É que, se estiver a contar com o apoio do governo, pode esperar sentado.

Constança Urbano de Sousa era uma ministra fraca politicamente. Eduardo Cabrita foi escolhido para lhe suceder por ter o perfil oposto.

Com uma "vantagem" que, provavelmente, nenhum ministro da Administração Interna teve até às tragédias de 2017: é que, pela primeira vez em muitos anos, o país político - e não só - assumiu o compromisso de não deixar nada como antes. Lamentavelmente foi preciso morrerem mais de cem pessoas para que se admitisse que é preciso romper com os vícios do passado e definir uma estratégia de curto, médio e longo prazo que evite os mesmos erros de sempre.

Eduardo Cabrita só tinha de saber usar esta vantagem e resgatar para o Estado o poder que ele tem, ou devia ter. Porque se é verdade que uma reforma da floresta não se faz de um ano para o outro, não é menos verdade que o governo teve tempo mais do que suficiente para preparar a Autoridade Nacional de Proteção Civil para a nova época de incêndios. Para escolher os melhores, os mais capazes e para encontrar a melhor forma de organização possível. Mas, para isso, o Estado tem de ser forte. O governo tem de ter autoridade. E o ministro tem de saber estar à altura das suas responsabilidades.

Ora, aquilo a que estamos a assistir neste momento é ao exato oposto. As guerrinhas ridículas entre corporações a quem o Estado ao longo de anos foi cedendo poder, para nunca mais o reconquistar, continuam a minar toda e qualquer estratégia que permita preparar o país para a nova época de incêndios. Perante o desespero de todos os profissionais da Autoridade Nacional de Proteção Civil que agora, como sempre, estão empenhados em fazer o seu trabalho com profissionalismo. Perante o voluntarismo e, porque não dizê-lo, patriotismo dos milhares de bombeiros que em todo o país estão disponíveis para arriscar a vida no combate às chamas. Perante a perplexidade e a vergonha de um país inteiro, ainda mal refeito das tragédias do ano passado e que continua a assistir a este reles filme.

Se é Jaime Marta Soares que manda, se é sempre dele a mão que está por detrás dos arbustos, então que o nomeiem de uma vez ministro da Administração Interna. Se ele já tem o grande poder, que fique também com a enorme responsabilidade política de definir a estratégia de combate aos incêndios. Que escolha quem ele quiser para os cargos todos, que mostre de uma vez quão genial é a sua visão. Se é Jaime Marta Soares que dá os murros na mesa, que mantenha os punhos cerrados na hora de contabilizar vítimas e avaliar prejuízos. Que seja ele a responder perante o país pelas decisões que já toma, mas sobre as quais outros dão a cara.

Eu - e julgo poder falar pelo Jorge Guerreiro - depois daquela noite e de tantas que se seguiram, naquele ano e nos anos seguintes, só podemos admirar o trabalho incrível dos bombeiros portugueses. Claramente, eles merecem um representante melhor.

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