O estado da oposição

Talvez este seja um daqueles lugares comuns que nunca ninguém se atreve a banir: em democracia, é tão importante o papel de quem está no poder como o de quem está na oposição. E se há momento para sublinhar e repetir esta frase é este em que debatemos o País democraticamente.

O debate do estado da Nação teve tanto de previsível como de sofrível. O PS, com o ego a rebentar, olha-se ao espelho e faz juras de amor eterno. A esquerda - que já está em campanha há mais de um ano - continua a corrida furiosa pelos méritos de uma governação que só assume como sua quando ela é doce, porque, quando amarga, cospe repetidamente. O CDS, que baixou claramente o tom, prefere ignorar o estado da Nação e aproveita o palco mediático para apresentar o programa eleitoral das próximas legislativas. Suave, doce, pausadamente. Sobra o PSD - e é aqui que o previsível se transforma em sofrível.

Há muito que bancada laranja é o espelho do partido. Num dos debates mais importantes do ano, as clareiras na bancada social-democrata são uma espécie de metáfora da "falta de comparência" do maior partido da oposição nos últimos anos. Depois há os indefetíveis - e os saudosistas - de Passos Coelho. Esses agrupam-se nas filas traseiras do plenário, vão cochichando, sorrindo, distantes da direção da bancada e, sobretudo, do partido. Uma espécie de renegados por opção própria. Quando Fernando Negrão abre o microfone, alguns deixam-se escorregar na cadeira até que o ecrã do computador lhes esconda a cara, como se estivessem cobertos de uma vergonha que não devia ser alheia, mas é. Oh, se é.

Do púlpito, Fernando Negrão rematou um discurso dizendo que o PSD começou a legislatura como o partido mais votado pelos portugueses e que é dessa forma que espera começar a próxima legislatura. Mas, para o caso do soundbyte não ter colado à primeira, decidiu voltar a ele logo a seguir e, numa esganiçada resposta ao PS, afirmou assertivo: "O PSD vai ganhar as próximas eleições legislativas". Ambição ou desespero?

Fosse assim tão fácil: cerrar os olhos, pensar com muita força e repetir várias vezes o mesmo desejo até que ele se concretize. Mas não é. Para ganhar eleições, é preciso ter-se uma mensagem clara, uma alternativa que as pessoas compreendam e considerem melhor que a atual, uma consistência no discurso que não provoque equívocos. Para ganhar eleições, é preciso que as pessoas confiem. E o PSD, neste momento, tem pouco de confiável. E tem ainda menos de alternativa.

Pelo contrário, quatro anos depois, o PSD parece ter saído do coma em que a geringonça o colocou em 2015 - e do qual acordou nas autárquicas de 2017 -, para se tornar um partido zombie, que se assombra a si próprio todos os dias. Se, no seu orgulhosamente só, Rui Rio ainda não percebeu que um país não se conquista sozinho, os seus críticos parecem ainda não ter percebido que pode sobrar pouco PSD no final deste processo.

Bem sei que tudo isto parece um disco riscado e que em tempo de guerra não se limpam armas. Até porque, a pouco mais de dois meses das eleições legislativas, não sobra muito tempo aos partidos para grandes reflexões. Mas esta reflexão, no PSD, vai ter que ser feita. Mais cedo que tarde, sob pena de a nossa democracia ver mirrar um dos partidos mais importantes do nosso sistema partidário.

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