O abraço do urso (I)

Até agora, o país conhece pouco ou nada da tão famosa alternativa ao governo de António Costa. O que é que Rio defende sobre a descentralização? Sobre a reforma da Segurança Social? Na justiça? Na saúde? Na educação?

Braços à volta do tronco, mãos presas uma na outra com o objetivo de manter o adversário firme, peito com peito. A definição de "abraço do urso", um recurso muito utilizado no wrestling e no grappling (lutas corpo a corpo), serve amiúde de metáfora à política. Já serviu para caricaturar a geringonça e a forma como António Costa terá dado "o abraço do urso" ao Bloco de Esquerda e ao PCP. E pode muito bem voltar a ser a imagem perfeita para as novas relações entre o PS e o PSD de Rui Rio. A pergunta que ainda está por responder é quem é que vai dar "o abraço do urso" a quem. Será Rui Rio a António Costa? Ou o contrário?

Que, no estilo, Rui Rio seria sempre um líder muito diferente de Pedro Passos Coelho era fácil de adivinhar. Que o conteúdo político do novo líder do PSD não é muito diferente do anterior isso também já ficou claro, depois do congresso. A grande incógnita é saber se o estilo e a estratégia de Rui Rio para chegar ao poder são suficientemente eficazes ou se se revelam um fiasco total, atirando assim o partido para uma travessia no deserto que pode durar, pelo menos, oito anos.

Rui Rio é conhecido por ser um obstinado. Para o bem e para o mal. O novo presidente do PSD não realinha a sua estratégia em função do que se diz ou do que se escreve. Não que isso lhe seja indiferente - caso contrário não teria tantos problemas com a comunicação social -, mas Rio não deixa de fazer o que quer só porque alguém o critica ou lhe faz frente. Veja-se o que está a passar-se com a bancada do PSD. Perante uma rebelião da maioria dos deputados e um novo líder parlamentar desajeitado, Rio prefere deixá-los pousar. E na agenda ainda não encontrou espaço sequer para uma reunião com a bancada do partido - um erro crasso, como já disse, e bem, Pedro Adão e Silva.

Como líder da oposição, a estratégia de Rui Rio parece ser comportar-se como se já fosse primeiro-ministro. Por oposição à estratégia de guerrilha política, do soundbyte que provoca reação, seguida de reação à reação, Rio prefere confiar na tese de que o eleitorado o levará mais a sério se ele tiver uma postura de estadista, mais preocupado com o país do que com o partido e, já agora, consigo próprio. Se resultou no Porto, talvez resulte no país. Foi por isso que ele admitiu, ainda durante a campanha interna do PSD, que estaria disponível para apoiar um governo minoritário do Partido Socialista. É por isso que Rio está tão disponível para negociar com o governo os temas estruturantes para o país.

E é aqui que pode estar o abraço do urso de Rui Rio a António Costa. Manter os amigos perto e os inimigos ainda mais perto. Neste caso, presos, peito com peito, até que o eleitorado perceba que Rio é um político diferente, confiável e mais capaz do que António Costa. Esta estratégia tem, pelo menos, o mérito de ser diferente da de Passos Coelho, o que, por si só, não é despiciendo. Não faria sentido o PSD mudar de líder se não fosse para mudar de estratégia. Acresce que, com esta postura, Rui Rio procura abrir mais brechas na geringonça. Não por acaso, PCP e Bloco de Esquerda já começaram a pedir ao PS que se decida. E, também não por acaso, António Costa já veio tentar acalmar os parceiros dizendo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Mas como qualquer estratégia, esta de Rui Rio também tem riscos. E são elevados. Para ser primeiro-ministro, Rio tem de conseguir uma de duas coisas: esperar que as coisas corram muito mal a António Costa, o que neste momento parece um cenário altamente improvável; ou conseguir demonstrar ao eleitorado que a estratégia que tem para o país é melhor do que aquela que está em curso. Até agora, o país conhece pouco ou nada da tão famosa alternativa ao governo de António Costa. O que é que Rio defende sobre a descentralização? Sobre a reforma da Segurança Social? Na justiça? Na saúde? Na educação?

O tempo não corre a favor do PSD. No próximo ano há três eleições e as duas primeiras - europeias e regionais da Madeira - serão sempre uma espécie de barómetro de Rui Rio, quer ele o admita ou não. O PSD só voltará ao poder numas eleições legislativas quando conseguir uma maioria absoluta, sozinho ou com o CDS. E o problema é que para lá chegar não basta a Rui Rio reconquistar o eleitorado de centro-direita que o PSD perdeu nos últimos dois anos. Tem de ir buscar o do centro-esquerda que o PS "roubou". Se o novo líder do PSD não conseguir mostrar a esse eleitorado que tem um projeto melhor para o país, o "urso" será outro. Passa a ser António Costa, outra vez. O abraço de Costa, que pode esmagar Rui Rio, fica para a próxima semana.

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Anselmo Borges

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