Deixem os motoristas fazer greve

Atestem os carros e as motas todas lá de casa. Corram aos supermercados e recolham tudo o que puderem. Escolham alimentos com um prazo alargado de validade e não se esqueçam da água. É importante manterem-se hidratados. Passem pela farmácia, se precisarem de algum medicamento. A seguir, recolham aos vossos "abrigos". E aguardem, pacientemente.

Preparem-se para a "guerra". Porque foi isso que os motoristas de pesados declararam aos patrões: uma guerra. E, como toda a gente sabe, nas guerras há sempre vítimas colaterais. Se estiverem revoltados ou não compreenderem os motivos desta paralisação, repitam comigo: a greve é um direito previsto na Constituição e que tem que ser respeitado. Se a única forma de conseguir um aumento de 150% é parar o país e provocar prejuízos avultadíssimos a toda a gente, pois que seja. Só temos é que estar todos solidários e colaborantes.

Dá-se o caso de os motoristas terem este "poder". Sem eles, os combustíveis não chegam aos postos de abastecimento. Os aeroportos ficam secos. Os alimentos não chegam aos mercados e aos supermercados. Os medicamentos não chegam às farmácias e aos hospitais. E o "poder", já se sabe, existe para ser exercido. Talvez os patrões, o Estado e a população em geral tenham subestimado os motoristas durante demasiado tempo. Talvez ninguém tenha compreendido, verdadeiramente, esta profissão, os riscos que corre todos os dias e os salários indignos que paga. Mas agora, a bem ou a mal, todos vão ficar a saber quem são. E de que massa é feita quem os representa. O senhor doutor Pardal Henriques, o estratega que arquitetou esta guerra.

A primeira greve, na primavera, foi apenas um "aperitivo". Se, em abril, o Governo foi completamente apanhado desprevenido, agora, a dois meses de eleições e com a maioria absoluta à vista, é que António Costa vai ver como "elas lhe mordem". Até lhe vão tremer as perninhas. Agosto, com meio país de férias, milhares de turistas a chegar e a partir, a dois meses das eleições, é infalível. O Dr. Pardal Henriques é que tem razão. É preciso aproveitar este período eleitoral, que não há oportunidades destas todos os anos. Aproveitar as oportunidades não é sinónimo de oportunismo, pois não?

Se a opinião pública se virar contra os camionistas, paciência. Daqui a uns meses, já ninguém se lembra disso e os aumentos, esses, estarão garantidos

Se é para pedir, pede-se já tudo de uma vez. Não há cá contemplações. Aumentos para 2020, 2021 e 2022. O quê? 2020 já estava? Pois, mas não chega. É preciso que o salário base passe dos 675 euros mais prémios para os 900 euros mais prémios. Assim, de uma assentada. É perfeitamente razoável, não é? Senão, o país vai mesmo parar. E quando eles aceitarem - não vão ter outro remédio - começa-se logo a discutir os aumentos de 2023, 2024 e 2025.

Não é chantagem. É o que é. A greve é um direito que não pode ser coartado a ninguém. Os sindicatos e a esquerda apoiam. A oposição - qual oposição? - anda desaparecida em combate. O Governo, coitado, está tão desesperado por uma maioria absoluta que vai tratar os camionistas nas palminhas. E o Presidente, esse, mandou umas "bocas", mas não vai querer comprar uma guerra com os motoristas de pesados.

Se a opinião pública se virar contra os camionistas, paciência. Daqui a uns meses, já ninguém se lembra disso e os aumentos, esses, estarão garantidos. Agora, é escavar até chegar ao lado de lá.

Por isso, das duas uma: ou os patrões se comprometem a pagar o que os motoristas exigem ou o país fica paralisado. E não se esqueçam: quando estiverem todos à beira do desespero e decidirem ceder, preparem-se para começar a discutir os aumentos de 2050. Senão, há greve lá para o Natal e ninguém vai a casa passar a consoada com a família.

Se é isto que estamos a discutir, preparemo-nos todos para o que aí vem e deixemos os motoristas fazer greve durante o tempo que quiserem, até se cansarem. Quando eles quiserem ter uma discussão razoável, racional, sem chantagens nem oportunismos bacocos, os patrões que voltem a sentar-se à mesa com eles e discutam salários e condições mais dignas para a profissão. Porque essa discussão está por fazer. Nesta, como em tantas outras profissões.