A geringonça nasceu do casamento de duas vontades: a de António Costa, que não quis conformar-se com uma derrota eleitoral, e a do Bloco e do PCP, que queriam à força impedir a direita de continuar no poder. Por uma vez na história, o que unia estes três partidos era muito mais forte do que aquilo que os separava. Dois anos depois, o pressuposto está a esgotar-se. .As eleições autárquicas foram uma espécie de teste do algodão para os partidos. O PSD ficou a saber que a perceção do eleitorado era muito pior do que Passos Coelho imaginava. O CDS descobriu que, quanto mais o PSD se afundar, mais o partido que um dia foi do táxi pode chegar a minivan. E o Partido Socialista conseguiu, finalmente, legitimar o líder, António Costa, com uma vitória eleitoral. Mas as autárquicas foram uma revelação, sobretudo, para o Bloco de Esquerda e para o PCP, que confirmaram aquilo de que já todos suspeitavam: os méritos da atual governação estão todos a ser canalizados para o PS, os deméritos são a dividir por todos. .O balanço de dois anos de geringonça é relativamente simples de fazer: os resultados políticos apresentados superaram, de longe, todas as expectativas. Foi possível devolver rendimentos a um ritmo frenético, sem que isso tenha posto em causa o equilíbrio das contas públicas. E esta era, há dois anos, a grande dúvida..Cumprido esse desígnio, o Bloco de Esquerda e o PCP começaram a perceber que a criatura pode acabar por matar os seus criadores. É isso que explica o distanciamento, cada vez maior, dos dois partidos em relação ao PS. É por isso que Jerónimo de Sousa insiste que o PCP não voltará a assinar qualquer tipo de entendimento com os socialistas. E é também por isso que Catarina Martins já disse que a geringonça é irrepetível. Ninguém quer novos acordos escritos, até porque a estratégia, daqui para a frente, é muito clara: afastar-se do PS, mas manter os socialistas com rédea cada vez mais curta. .Significa isto que pode vir aí uma crise política? Não me parece. Todos os partidos, à sua maneira, precisam de tempo. O PS precisa de recuperar os votos perdidos durante o verão e o outono e voltar a trabalhar para ter uma maioria absoluta. O PCP e o Bloco precisam de impedir essa maioria absoluta, capitalizando as conquistas da geringonça e distanciando-se dos fracassos da governação. O PSD precisa de tempo para afirmar a nova liderança. E o CDS precisa de fazer o mesmo trabalho de formiguinha que Cristas fez nas autárquicas. .A má notícia é que os próximos dois anos vão ser de puro calculismo político e nada de substancial vai mudar no país. Basta, aliás, ler o documento de balanço do governo sobre o presente e o futuro da governação: justiça, saúde, educação, requalificação da administração pública... nada disto cabe na agenda para o futuro. E é fácil perceber porquê. Estas são áreas em que é praticamente impossível o PS conseguir entendimentos à esquerda. .A geringonça morreu, mas o óbito só será declarado daqui a dois anos. Até lá, vamos viver um período de campanha eleitoral permanente. O PS já começou a investir em estudos de opinião. O PCP já tem os sindicatos todos na rua e até já abriu uma página no Facebook. O Bloco de Esquerda já está a compilar todas as cedências que obrigou o PS a fazer e a desdobrar-se em entrevistas para ocupar o espaço mediático. Falta perceber que estratégia vai sair da nova liderança do PSD, mas, a avaliar pela campanha interna, não se antevê, para já, que das próximas eleições saia uma alternativa clara.