Das polémicas estúpidas e do que elas provocam

Nas últimas duas semanas, dei por mim, várias vezes, a tentar encontrar um racional para a polémica que se levantou com as cerimónias do 25 de Abril na Assembleia da República. Entrevistei, comentei e analisei o tema, porque a atualidade assim o exigia, mas, verdadeiramente, nunca consegui encontrar motivo que justificasse tão acalorada discussão em torno de um assunto que tinha, a meu ver, solução muito fácil. E que até representava uma excelente oportunidade.

A pandemia do novo coronavírus forçou-nos a todos - famílias, empresas e órgãos de soberania - a uma mudança de 180 graus nas nossas rotinas. E a Assembleia da República não é exceção. Ironicamente, este ano celebramos Abril confinados em casa, privados da nossa liberdade, coarctados de muitos direitos que achávamos inamovíveis. Mas, ao contrário do que muitos nos querem fazer crer, estes factos não anulam - pelo contrário, só reforçam ainda mais - a necessidade de assinalarmos a data. Porque se há ameaça política que esta pandemia transporta é precisamente a de um retrocesso civilizacional. É a da oportunidade que ela cria aos oportunistas disfarçados de populistas, para se alimentarem ainda mais do medo dos outros, para se tornarem invencíveis.

E que ninguém tenha ilusões. A ameaça é bem real. Quando a crise sanitária se transformar numa crise económica e depois numa crise social, fica escancarada a porta para os populistas mascarados de "salvadores" e talvez as crises políticas que conhecemos nos últimos 46 anos de democracia nos pareçam brincadeiras de crianças.

É que o cheiro bafiento que antes só circulava pelas redes sociais, agora também circula pelos corredores da Assembleia da República. E é, por isso, lá que tem de se começar a travar este combate. Não, a Assembleia da República não pode estar fechada no 25 de Abril. Nem que fique vazia, com as portas e janelas abertas, só para deixar correr o ar e para nos lembrar que aquela é a casa de todos - os democratas. A Assembleia da República tem de estar aberta e a democracia tem de ser celebrada na sua habitação própria, mesmo em dias atípicos como os que vivemos.

Mas é também daqui, da emergência que vivemos, que surgiu uma oportunidade única que foi desperdiçada. As regras de distanciamento social que obrigaram a reduzir o número de participantes nas cerimónias do 25 de Abril constituíam, na verdade, uma excelente oportunidade para repensar o modelo clássico que se tem vindo a eternizar ao longo dos anos, dos discursos longos, repetitivos - e, em alguns casos, muito pobres -, que já não dizem quase nada à maioria dos portugueses e que são, muitas vezes, discursos para a "bolha".

Se, no país, milhares de trabalhadores foram capazes de se reinventar, de trabalhar a partir de casa e de pegar em ferramentas digitais que antes ignoravam, porque é que a Assembleia da República e os partidos políticos não podem repensar as cerimónias do 25 de Abril, tornando-as mais inclusivas e mais próximas dos portugueses, que estão há quase dois meses fechados em casa? Porque é que, com os meios digitais que temos hoje ao nosso alcance, não é possível fazer uma cerimónia que inclua todos os que, em circunstâncias normais, estariam sentados no plenário no 25 de Abril? Ex-presidentes, representantes dos órgãos de soberania, os capitães de Abril e os 230 deputados.

O reparo não me retira a incompreensão com tamanha histeria em torno da celebração do 25 de Abril este ano, com argumentos demagógicos e muitas vezes infantis - com petições, discursos inflamados e tempo e energia gastos a debater um tema que era mais útil que tivesse sido utilizado a pensar na melhor forma de assinalar a data em circunstâncias tão excecionais como as que vivemos.

Só por necessidade de afirmação ou por sobrevivência política posso compreender que um partido como o CDS se tenha empenhado tanto em vincar a sua oposição às celebrações. Não que o partido não tenha direito a ter opinião diferente - é essa uma das vantagens do 25 de Abril -, mas porque não era caso para tanto. Porque acabou injustamente por ser acusado de não ser um defensor de Abril. E, sobretudo, permitiu mais uma vez uma colagem ao experimentado André Ventura, que sabe sempre de que lado está: do que lhe der mais jeito em cada momento.

A polémica - estúpida, que não tem outro nome -, acabou por ter ainda o efeito perverso de acicatar os "políticos de algibeira" que povoam as redes sociais e que nunca perdem uma boa oportunidade para desconversar ou, pior ainda, para exporem ao mundo o seu luxuoso vernáculo. E desviou, durante duas semanas, a atenção do país do mais importante: esta pandemia não é apenas uma ameaça à saúde pública, é uma ameaça à democracia. E se há valores que vale a pena repetir em voz alta num momento como este, são os do 25 de Abril.

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