Um governo sem oposição

O país vive um momento político único. Tem um governo do Partido Socialista minoritário, uma esquerda aprisionada, um centro-direita praticamente irrelevante e dois pequenos partidos que vão atirando umas "bolas para a bancada". Nada disto augura nada de bom.

Pela primeira vez em muitos anos, foi formado um governo sem que se tenha ouvido uma voz da oposição, digna desse nome. O Bloco de Esquerda fechou-se em copas, desorientado que está com o chuto que levou do PS. O PCP repete a cartilha das últimas décadas: "Mais do que os nomes dos ministros, o que nos interessa são as políticas" - mesmo que, daqui a uma semana, aprove o programa de governo, enquanto discorda das políticas.

O PSD tem mais em que pensar. Continua a viver a sua crise existencial, embrenhado numa disputa interna que promete arrastar-se até janeiro e agora não tem tempo para fazer oposição ao Governo. No CDS, o problema é mais grave: já sobram poucos para manter o partido de pé, quanto mais para fazer oposição. Restam o PAN, que está disponível para tudo, o Iniciativa Liberal e o Chega - duas das três novidades no Parlamento - que vão ocupando o espaço disponível e que são, à falta de melhor, o mais próximo de oposição que o governo de António Costa tem neste momento.

Por caricata que seja a situação, ela não deixa de ser muito preocupante. Os desafios políticos e económicos que o país tem pela frente são enormes e, em democracia, o papel da oposição é tão ou mais importante que o do governo. Pelo escrutínio que tem a obrigação de fazer, mas, sobretudo, pela alternativa que representa para os eleitores.

António Costa parte para esta segunda legislatura como se fosse um eucalipto. Os últimos quatro anos de geringonça secaram tudo à volta e deixaram o país sem alternativas políticas. O Bloco de Esquerda e o PCP por razões óbvias: com ou sem papel, ninguém tem dúvidas de que o PS, na hora da verdade, sobrevirá com o apoio de um destes dois partidos. É só dar-lhes umas "bandeiras" que permitam fazer manchete no jornal do dia seguinte. "Conquistas" que nunca teriam existido sem a pressão da esquerda, mas que, na verdade, são o seguro de vida do Partido Socialista no poder.

O PSD vai demorar algum tempo a voltar ao ativo e, quando voltar, há duas hipóteses: ou regressa com Rui Rio ou tem Luís Montenegro como presidente do partido. Nenhum destes dois cenários é propriamente mau para António Costa. Se Rui Rio continuar, Costa poderá contar sempre com um parceiro no centro-direita, quando a esquerda lhe falhar. Mas se Luís Montenegro chegar à liderança do PSD, esse será o cimento de que a esquerda precisa para apoiar ainda com mais entusiasmo um governo do Partido Socialista. É como se Passos Coelho tivesse encarnado em Montenegro e recuássemos quatro anos.

O CDS, estimo, vai deixar de fazer mossa durante algum tempo. O partido que Paulo Portas agigantou voltou a tornar-se um anão político, ensanduichado agora entre o Iniciativa Liberal e o Chega. O que é uma pena porque o CDS foi, até hoje, uma espécie de tampão da extrema-direita e, por causa de uma crise de identidade entre a direita mais conservadora e a mais liberal, acabou por ser engolido pelas duas.

Como oposição, sobra-nos, neste momento, o Iniciativa Liberal e o Chega, dois partidos que são ainda muito pequenos. O Livre não conta porque, claramente, está mais interessado em disputar o campeonato das "bandeiras" políticas com o BE e com PCP. O PS está, por isso, bastante folgado. Com deputados suficientes para uma geometria que pode variar entre o BE, o PCP e o PSD e com a margem de manobra suficiente para fazer "oposição" a quem lhe devia fazer oposição

Claro que tudo isto pode mudar "de um dia para o outro". Basta vir uma crise. Basta haver uma coligação negativa idêntica à dos professores na anterior legislatura. Basta acontecer o imprevisto que, quando acontecer, todos previram. Mas, para já, António Costa só podia ter desejado um cenário melhor: uma maioria absoluta. Coisa que o eleitorado não lhe deu e que o devia fazer refletir.

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