Um filme para pensar em tempo de Natal. Com 'post scriptum'

Estava eu a fazer zapping enquanto espreitava o apuramento da votação na Catalunha quando me apareceu um filme com dez anos que não tinha visto. Expiação, de Joe Wright. Tinha lido o romance de Ian McEwan que lhe deu origem e é verdade que, se gosto de um livro, hesito em ver adaptações. Manias. O filme estava ali a tentar-me.

Deixei Arrimadas e Puidgemont em suspenso. Já toda a gente tinha percebido que as percentagens iam fazer esperar longamente qualquer espécie de solução, e fiquei a ver o filme. É redundante dizer como reconforta ver atores bons e bem dirigidos, aquela escola britânica que nos reconcilia com isto de sermos espectadores. Bastaria ver Brenda Blethyn no seu pequeno papel e já a noite estava ganha, aquele rosto capaz de todas as nuances da maravilhosa detetive Vera da série de televisão homónima e igualmente maravilhosa. Redundante também falar da segurança do realizador e tudo por aí fora, mas aqui o redigo porque de novo me envolvi naqueles ambientes tão bem produzidos, na decadente aristocracia como na mais miserável situação de guerra.

Tudo isto faz parte do encantamento de ver um filme assim, sem clichês, cuidado ao pormenor, num vaivém temporal que nos explica o que pouco antes não era claro. Tal como no livro, as mudanças históricas dentro das mudanças na própria literatura, a casa de bonecas dentro da casa da realidade.

E depois há a expiação, a mancha que corrói a vida da escritora até que deita mãos ao romance onde tenta recompor o que infantilmente destruíra. E aí é que está o ponto, na culpa que aquela mulher carrega, ela que das brincadeiras da infância passara para o inferno dos hospitais dos retirados de Dunkerke, um desespero temperado pela melancolia de Debussy. Ao longe, está a culpa sem escrúpulos do homem que desencadeou o erro de Briony, o snobe industrial do chocolate das rações de guerra, interpretado por Benedict Cumberbatch (gosto de escrever o nome dele apesar de ter de verificar três vezes se está certo).

A culpa, o perdão que a escritora decide impossível, a redenção tentada no ato da escrita, o lugar do autor dentro da obra literária, o argumentista que pega num texto e o torna cinema. Um filme e um livro com pano para mangas para pensar. Não que sejam os melhores de sempre mas para uma noite em casa, com o frio a apertar e as notícias a prender-nos ao sofá, ver Cecilia/Keira Knightley e Robbie/James McAvoy sabe muito melhor do que ter na frente um senhor de penteado estranho que se foi abrigar noutro país, como se fosse um valente exilado a fugir de uma ditadura sanguinária.

Depois do filme, já se percebeu, regressei à Catalunha. O resultado previsto estava confirmado. E ontem voltei a pensar no Natal, esta virose que termina pontualmente, cumprindo o calendário e invadindo-nos de filas, confusões e, perdoem-me a fraqueza e a franqueza, daqueles inenarráveis anúncios de perfumes franceses, o mau gosto com o fausto à la Versailles que nos faz pensar com generosidade na pobre Popota. Tanto frasco de perfume, tanta pomba assassinada, tantos brilhantes escusados.

Diz o calendário e é forçoso cumpri-lo: é tempo de preparar a festa que a cada ano é igual e tão diferente na composição das mesas familiares. A algazarra das crianças há de sobrepor-se aos lugares vazios. E como estamos em maré disso, que a força esteja connosco.

P. S. - Aproveito este espaço para pedir aos amigos e afins que não me enviem sms de boas-festas amanhã, porque estarei concentrada a ver explodir os sonhos na frigideira e ferver a calda de açúcar. São momentos de risco, prefiro não ser distraída por campainhas. Podem fazê-lo noutros dias, a 27 ou 28, como se me tivessem enviado pelo correio um cartão da Unicef e chegasse com grande atraso (tanto que havia para dizer sobre o descalabro dos CTT depois da privatização). Com o tal atraso faz-se um dois em um e resolve-se logo os votos para os 365 dias do próximo ano. Sempre se ganha um tempo para preguiçar. Terminar o ano a invocar o direito à preguiça parece-me bem.

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