José, Josiane, Mariazinha, Zé Pedro. Sem ódio, keinen Hass

José Vieira é um herói da resistência ao nazismo e nós não sabíamos. Nem ele teve certamente noção da sua grandeza. Se falarmos só do início e do fim, parece a história habitual de um emigrante: nasceu em Valença em 1907, morreu em França em 1994. Mas se dissermos que foi comunista, resistiu à ocupação da França, foi trabalhador forçado em fábricas alemãs e autor de vários atos de sabotagem, foi tão maltratado e passou tantas dificuldades que o corpo ficou incapacitado para o trabalho, e se lhe acrescentarmos a expressão "keinen Hass" - sem ódio -, temos uma figura que não podia ficar esquecida.

A história dele está contada pela filha e por alguns documentos numa pequena exposição, num recanto do hall principal do Centro Cultural de Belém. Josiane Vieira foi filmada na casa onde viveu com os pais, na Lorena, a França encostada à Alemanha. É ela quem murmura "keinen Hass", num vídeo que passa sucessivamente, intercalado por imagens de filmes de propaganda nazi de Leni Riefenstahl que glorifica o trabalho como valor absoluto. No caso de José, não tinha alternativa: era trabalho escravo.

Regresso ao ódio e à capacidade de não odiar e por isso recordo de novo Mariazinha revisitando, no filme As Rosas de Ermera, o campo de concentração japonês, onde viveu a infância. Fala pacificada e, em vez de ressentir as humilhações, sublinha a dignidade do pai, os sapatos novos, o exame da quarta classe, o esforço diário pela sobrevivência, os amigos, o aroma das rosas.

José Vieira conversou muito com a filha sobre o que viveu nos anos do horror. Chorava sempre, choravam os dois. E havia mais para contar, e contou também. Os passos que o levaram a pé do Minho até França, analfabeto e determinado a mudar o destino. Não havia dinheiro para comboios nem camionetas. Os passos percorridos com malas cheias de panfletos da Resistência, que escondia numa floresta. Um dia encontrou uma das malas partidas e um recado manuscrito: "Camarada, não te preocupes, não vou denunciar-te. Levo alguns panfletos para dar informações aos outros companheiros. Continua o teu trabalho. Um camarada ferroviário." Os passos de José Vieira na fábrica alemã onde fazia arder fornos de lã e, quando os reparava, deixava tudo preparado para novo incêndio. Os passos e a violência no campo mais duro, onde aprendeu a ler e escrever com um companheiro alemão e, com os outros prisioneiros, prescindiu de comida para dá-la aos jovens. Os passos depois da guerra, no regresso a França, à mulher e à filha que não o conhecia.

Vinte e tal anos depois, Josiane era uma cantora de sucesso a trabalhar na Alemanha e chamou a família. José só conseguiu ir seis meses depois da mulher e dos filhos mais novos. Criaram vizinhanças, amizades, novos laços. Depois foi altura de regressar a França. Resolvida a mudança, restava uma burocracia. O automóvel de José tinha de ser registado na Lorena. Mudada a chapa, José disse à filha: "Gostava mais de ver o carro com a matrícula alemã, ficava-lhe melhor."

O ressentimento é tão humano como a gratidão, mas, ao contrário desta, pode ser destrutivo e tirar-nos a lucidez. Todos o temos nas nossas vidas, porque alguém passa à frente na fila do supermercado ou nos finta no trânsito, porque a doença, a maldade, a injustiça nos atingem, tantas vezes com enorme dureza.

Penso em José Vieira, em Josiane e em Mariazinha e tenho no coração a partida do Zé Pedro. Aquele sorriso feliz a espalhar doçura não nasceu de uma vida fácil, sem dores profundas. A doença e a morte da mãe quando todos os sete irmãos eram ainda tão jovens; as sessões sucessivas fechado no cinema para não se cruzar com os dealers que lhe facilitavam drogas; ele no palco no dia em que o pai morreu, com os irmãos todos e os muitos amigos entre o público; ele a levar os filhos da Marta Ferreira ao concerto dos Rolling Stones, pouco tempo depois de ela morrer subitamente. Ele a arranjar sorrisos até ao fim para pacificar os que o amam. Com a elegância e a graciosidade de quem não sucumbe ao ressentimento e o deixa para quem não está bem com a vida, para quem não está bem consigo mesmo. Keinen Hass.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Premium

Crónica de Televisão

Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.

Premium

Fernanda Câncio

O jornalismo como "insinuação" e "teoria da conspiração"

Insinuam, deixam antever, dizem saber mas, ao cabo e ao resto, não dizem o que sabem. (...) As notícias colam títulos com realidades, nomes com casos, numa quase word salad [salada de palavras], pensamentos desorganizados, pontas soltas, em que muito mais do que dizer se sugere, se dá a entender, no fundo, ao cabo e ao resto, que onde há fumo há fogo, que alguma coisa há, que umas realidades e outras estão todas conexas, que é tudo muito grave, que há muito dinheiro envolvido, que é mais do mesmo, que os políticos são corruptos, que os interesses estão todos conexos numa trama invisível e etc., etc., etc."

Premium

João Taborda da Gama

Aceleras

Uma mudança de casa para uma zona rodeada de radares fez que as multas por excesso de velocidade se fossem acumulando, umas atrás das outras, umas em cima das outras; o carro sempre o mesmo, o condutor, presumivelmente eu, dado à morte das sanções estradais. Diz o código, algures, fiquei a saber, que se pode escolher a carta ou o curso. Ou se entrega a carta, quarenta e cinco dias no meu caso, ou se faz um curso sobre velocidade, dois sábados, das nove às cinco, na Prevenção Rodoviária Portuguesa.

Premium

Catarina Carvalho

Querem saber como apoiar os media? Perguntem aos leitores

Não há nenhum negócio que possa funcionar sem que quem o consome lhe dê algum valor. Carros que não andam não são vendidos. Sapatos que deixam entrar água podem enganar os primeiros que os compram mas não terão futuro. Então, o que há de diferente com o jornalismo? Vale a pena perguntar, depois de uma semana em que, em Portugal, o Sindicato dos Jornalistas debateu o financiamento dos media, e, em Espanha, a Associação Internacional dos Editores (Wan-Ifra) debateu o negócio das subscrições eletrónicas.