"Cada geração deve retraduzir para si as grandes obras universais"

"Às vezes, tudo o que precisamos é de um bom livro", diz a dedicatória em letra bem legível, um presente de Natal antecipado que recebi há poucos dias. O Mundo é Pequeno, de Somerset Maugham, uma edição da Minerva em papel amarelo e amarelado pelo tempo. Tinha lido na adolescência No Fio da Navalha e Servidão Humana, nas edições dos Livros do Brasil que voltaram recentemente às livrarias pela mão da Asa. Mas nunca tinha navegado pelas ilhas da Indonésia deste livro que já ganhou agora um lugar na estante.

Ler um livro fragilizado pelo tempo exige cuidados especiais. Não o tratamos como um volume novo e resistente, damos-lhe as mãos pensando a quem terá pertencido, o que terá pensado o leitor que primeiro cortou as folhas dobradas. Ao contrário do que faço com um livro novo, não consigo escrever nas suas margens, sublinhar frases, como se não me pertencesse totalmente.

Lá estava eu a ler a história da viagem do médico Saunders de regresso a casa quando aparece a personagem Frith, o excêntrico professor que se dedica a traduzir para inglês Os Lusíadas. Já foi traduzido, dizem-lhe. "Sim, por Burton, entre outros. O pobre Burton não era poeta. A sua visão é intolerável. Cada geração deve retraduzir para si as grandes obras universais. O meu fito não é apenas dar a ideia, mas também conservar o ritmo, a musicalidade e o tom lírico do original."

Cada geração deve retraduzir para si as grandes obras universais. Gosto da ideia. Passadas algumas páginas, voltei atrás e dobrei o canto daquela folha, pequeno pecado comparado com o risco a lápis. Agora fui buscar o livro e regressei ao canto dobrado. "É a última das grandes epopeias", explica Frith ao médico que o visita e que pensa como é absurdo que ele pense que a tradução lhe vai render muito dinheiro - o dote que destina à filha.

O que me fez recolher da estante a obra de 1932 de Somerset Maugham foi a notícia de uma exposição sobre o papel dos portugueses na globalização nos séculos XVI a XVIII, ontem inaugurada nos Museus do Kremlin. As fotos mostram um biombo Namban, certamente com os narizes enormes dos europeus recém-chegados, e um retrato de Afonso de Albuquerque, que pensei inicialmente ser Vasco da Gama. Vai daí, lembrei-me de um outro alentejano de que ouvi falar nesta semana, na missa do sétimo dia de Zé Pedro. São João de Deus - disse o padre da paróquia - foi um grande aventureiro alentejano de Montemor-o-Novo, e fundou em Granada o primeiro hospital para doentes mentais.

Aqui não foi a estante que me socorreu mas a internet. Lá está ele, João Cidade, nado em 1495, andarilho por terras de Portugal e de Espanha, soldado aguerrido e zaragateiro, convertido pela palavra de São João de Ávila, denodado salvador de pessoas abandonadas e fundador da Ordem dos Irmãos Hospitaleiros.

Tudo isto me entreteve numa manhã tranquila, com uma chuva mansa a cair lá fora e um nevoeiro que não deixa ver mais do que os prédios mais próximos. A ouvir música francesa, por dever de ofício causado pela morte de Johnny Halliday, um rapaz da minha infância de que não recordo uma única canção. Mas ter de escrever sobre ele fez-me mergulhar nos outros, Jacques Brel, Juliette Gréco, Jean Ferrat, Leo Ferré, e isso soube-me bem.

Há um novo morador no meu prédio, um bebé que oiço vagamente chorar e ser embalado com aquelas canções e expressões que atravessam o tempo. Não sei nada sobre a criança, o nome, se é menino ou menina. O choro do bebé, a horas desencontradas, incomodado pela fome ou por aquelas coisas misteriosas que perturbam o sossego de um recém-nascido, faz-me sorrir por dentro, não me é desagradável. Acho que estou à espera de ouvi-lo dobrar o riso, esse momento que muda tudo na vida de uma pessoa.

E então percebo que o livro amarelecido da dedicatória me fez pensar na minha avó, no seu respeito infinito pelos livros, obstinadamente a ler com uma lente quando os olhos lhe tornaram as páginas uma mancha confusa.

Às vezes tudo o que precisamos é de um bom livro para navegarmos à boleia da nossa memória.

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