As lágrimas do general

Passadas as burocracias e seguranças do aeroporto, avançámos para a carrinha que ia levar-nos a Luanda. José Fanha, um dos portugueses convidados para o encontro de escritores da UCCLA de 2015, lançou o alarme: desaparecera o saco com o estojo da insulina e o computador. É preciso dizer que o poeta e cantor é um sério diabético. É preciso dizer também que foi ele o único que ficou tranquilo. Vai aparecer, garantia. No aeroporto de Luanda, estás louco?

A coisa resolveu-se, apesar de ser de noite e de ser necessário um médico para passar a receita e uma farmácia para comprar novo equipamento.

Seguiram-se três dias de conversas com e entre escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor, Macau. Nunca tinha assistido a uma abertura de encontro literário com o hino nacional do país anfitrião. Também nunca tinha visto um general fardado a chorar lendo um poema e propondo que os militares fossem convidados para a reunião. Peregrino Chindondo Wambu, conselheiro do chefe do estado-Maior das Forças Armadas de Angola, leu a Carta dum Contratado, de António Jacinto: "Eu queria escrever-te uma carta, Amor, Que recordasse nossos dias, Nossos dias na capopa, Nossas noites perdidas no capim..."

É possível ter saudades do que não se viveu? Eu tinha uma agenda completa, assisti a todas as sessões do encontro, conversei, trabalhei, passeei um pouco na Marginal, fui à ilha e a Miramar. Cada viagem traz um arrependimento, o de não ter aproveitado ao máximo. Tenho saudades do que não vi em Luanda.

O saco do Fanha apareceu. O recado chegou pelo Facebook, o saco estava com alguém que conhecia alguém que era amigo dele. Veio uns meses mais tarde, quando alguém o trouxe para Lisboa.

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