As chuvas de estrelas não se deixam ver. O que é que isso interessa?

Nunca consegui ver uma chuva de estrelas. Cada vez que é anunciada uma, geralmente como a maior do ano, acontece sempre qualquer coisa que me impede de assistir a esse espetáculo que na minha cabeça é um fogo-de-artifício de dimensão astronómica. Umas vezes porque estou num lugar que não permite visibilidade, com luzes artificiais a ofuscar o céu, outras porque estou a dormir, outras ainda, como aconteceu nesta semana, porque as nuvens tapavam tudo. Não é que não tenha tentado noutras ocasiões. Passei duas ou três noites ao relento - tenho testemunhas - com cobertores e chás quentes. Lá vai uma, olha outra ali (daí a dez minutos) e ponto final, vou mas é dormir.

Apesar de nunca ter conseguido observar, eu sei que ocorre, tal como nunca vi uma aurora boreal nem a Ayers Rock no meio da Austrália e sei que existem. Vi fotografias, filmes. Fazem parte da lista de coisas que gostava de ver um dia, uma lista sempre em evolução.

Vá lá, consegui escrever isto tudo sem falar na senhora que criou uma associação em vez de ficar de braços cruzados à espera de ver o filho morrer. Cá está o caso Raríssimas, tinha de ser. Ou era isto ou a história sórdida das adoções da IURD, andamos a pensar nisto a semana toda. Doenças mais raras do que as chuvas de estrelas, situações que nos fazem parar para pensar que há pais que se confrontam com filhos que têm mais problemas do que bronquites e gastroenterites, birras para lavar os dentes e ir para a cama.

Então o ponto de partida era mesmo este: uma criança com uma doença rara sobre a qual fui ler - um caso em cada dez mil pessoas, um gene identificado em 2004. Não descrevo os efeitos desta anomalia genética, quero apenas dizer que aquela criança em particular morreu e a associação continuou, ampliou-se e foi muito acarinhada.

O que aconteceu pelo meio é um deslumbramento chico-esperto que raia o doentio, numa escalada que foi possível pela impunidade e pelo medo. Uma coisa antiga, esse medo de denunciar o chefe mesmo se os erros estão à vista e são um escândalo. Isto seria uma história triste de "subiu-lhe à cabeça" se os dinheiros não fossem públicos e se a senhora em questão não se tivesse provado uma especialista em manipular influências.

A impunidade acabou, tudo o indica, porque a denúncia finalmente foi feita. Haverá julgamento, que talvez se arraste anos e anos pelos tribunais. Creio que pensámos com alívio, quando se demitiu do cargo, que se afastava do filme, que a vida podia continuar, mas eis que aposta na vitimização - é típico destas personalidades, disparar culpas para os outros -, numa atitude de desafio de daqui não saio, sabendo que um despedimento por justa causa é um processo demorado. E os efeitos colaterais continuam em desenvolvimento, a pôr em causa a generalidade das instituições de solidariedade social. E a fazer pensar na responsabilidade do Estado: é impensável que não possamos confiar no Estado se temos uma vida tão definitivamente marcada pela doença, a deficiência. Que todos os apoios possam ser postos em causa pelo comportamento de uma pessoa não sujeita a controlo sistemático.

Entretanto, a fogueira popular está ateada, com momentos altos nas redes sociais em delírio. As coisas que li nestes últimos dias. As coisas que as pessoas escrevem com a página do Facebook aberta. Não sinto nenhuma afinidade com a personagem em causa, o comportamento dela causa--me repulsa total. Mas mais uma vez me espanto com os comentários à rédea solta que traduzem por escrito tudo o que passa pela cabeça.

Penso na angústia dos que dependem da instituição. Os doentes que fatalmente vão sentir a perturbação no ar, as famílias que se sentiam confortadas, os que diariamente lá trabalham. A perplexidade perante a agitação de um quotidiano já de si complexo. A lista das coisas que estas pessoas gostariam de fazer um dia, tão radicalmente diferentes da minha insignificante pena de não conseguir ver uma chuva de estrelas realmente de dimensão astronómica e inesquecível.

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