Como na anedota do português numa ilha deserta com Claudia Schiffer

Septuagenário e careca, sorridente, Cassandri declara agora que não teve nada que ver com o assalto, quefora apenas uma gabarolice

O artista deve fazer o possível para que a posteridade pense que ele não viveu", disse Flaubert. Aí está um francês que sabia do que falava. Mas este ensinamento não chegou até Jacques Cassandri, um artista do crime com longo cadastro que não resistiu a gabar-se de ter sido o cabecilha do espetacular assalto a um banco de Nice em 1976. Aguentou o segredo durante décadas, depois escreveu sob pseudónimo um livro a contar a aventura em pormenor. Finalmente não aguentou mais: "Fui eu que fiz."

Cassandri sabia que o crime prescrevera. Não tinha nada a perder e muito a ganhar, porque não é qualquer um que pode anunciar uma coisa assim. O problema estava no outro lado da história: o crime do assalto prescreveu mas não a lavagem de dinheiro. E daí o processo que ocupou o tribunal nesta semana.

Septuagenário e careca, de sorriso bem-disposto, Cassandri declara agora que não teve nada que ver com o assalto, que fora apenas uma gabarolice para ajudar as vendas do editor. "Um pecado de orgulho", disse o advogado dele. Como na anedota do náufrago português numa ilha deserta com Claudia Schiffer, triste por não ter a quem contar. Realmente, de que serve uma coisa destas se ninguém souber? Nem todos são como Banksy ou Elena Ferrante e suportam o anonimato.

"Nem armas nem violência e sem ódio" foi a frase que os assaltantes deixaram grafitada no cofre-forte da Societé Générale, naquela belo dia em que saíram pelo túnel de oito metros escavado ao longo de dois meses. Passaram um longo fim de semana, incluindo o feriado de 14 de Julho, a despejar os 400 cacifos e até comemoraram com patê e vinho antes de carregar para o exterior os lingotes de ouro, dinheiro e joias no valor de 29 milhões de euros.

Cassandri, dono de um império imobiliário, de discotecas e restaurantes, tem um belo cadastro, em áreas mais desagradáveis: proxenetismo e tráfico de droga. Marselha é terra de grandes tradições portuárias, comerciais, industriais e, lá está, crime, geralmente envolvendo eleitos autárquicos. A cidade do hino - A Marselhesa da Revolução Francesa - tem grandes nomes nesse ramo da história que raramente aparece nos livros. Há mesmo quem lhe chame a capital do crime, e é certo que foi a capital da heroína nos anos 1960. French Connection diz-vos alguma coisa? Marselha, claro, primeiro com atividades tradicionais da Mafia, depois tráfico de armas e depois o lucrativo negócio da heroína originária da Turquia com destino aos Estados Unidos. Muitas mortes e muito terror depois, a polícia e os tribunais avançaram, e as habilidades criminais adaptaram--se aos novos tempos. Dos anos mais gloriosos resultaram dois filmes pelo menos - The French Connection (1971), de William Friedkin, com Gene Hackman, e o mais recente La French (2014), de Cédric Jimenez, mais próximo das personagens e dos factos.

Desse tempo ainda há sobreviventes, e um deles assistiu nesta semana ao julgamento de Jacques Cassandri, entre outros malfeitores. A bonomia do réu desarmou o tribunal. O procurador desabafou que não tinha provas para sustentar a acusação de que os negócios tinham na origem o dinheiro do famoso assalto. Resta a última esperança do esforçado procurador: que seja condenado a cinco anos de prisão e a uma multa de 300 mil euros por fraude, abuso de bens sociais e trabalho dissimulado. A isto respondeu o velho francês: "É um problema que eu tenho, sou fundamentalmente honesto nos meus negócios mas pouco rigoroso na aplicação da legislação." Al Capone poderia lamentar-se do mesmo, quando foi apanhado por fuga ao fisco.

Cassandri escapou de boa, com esta mania de se gabar. Conseguiu, no entanto, deixar a dúvida sobre o papel do sinistro Albert Spaggiari, considerado até agora o cérebro do assalto à Societé Générale. Era um homem de extrema-direita, membro da OAS e comprovadamente colaborador da polícia chilena DINA nos crimes em volta do derrube de Allende. Fugiu em pleno julgamento, numa operação rocambolesca. Também ele tinha um maire associado. Aliás, ao lado de Cassandri, no banco dos réus, esteve nesta semana um velho maire. Não há nada como a tradição.

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