As mil e uma noites do candidato a guru de seita religiosa

Uma rapariga japonesa perguntou: o que acontece se cortar uma das pontas de uma corda que prende uma roda de bicicleta que gira na vertical?

Uma pessoa chega a casa depois de um dia de trabalho, farta do calor deste São Martinho desregulado, e quer mesmo é jantar, desligar o cérebro das leituras de acórdãos trogloditas e da suposta política do ele disse e depois o outro disse e depois vai ele e respondeu. Carrega na tecla on da televisão, e daí a um bocado está com vontade de telefonar a perguntar: mas vocês pensam que eu não tenho mais que fazer?
Falo da programação da RTP2, e não vejam nisto qualquer intenção de propaganda. É um protesto, uma confissão. Ainda estava a recompor-me das neves e dos mares da Islândia, onde a população de uma pequena cidade e os passageiros de um ferry boat ficaram dez dias Encurralados e já está outra vez na tela a paisagem gelada de Fortitude, a série britânica na zona ártica da Noruega.

Tento evitar noticiários demasiado longos e pormenorizados sobre pessoas tão simpáticas e sossegadas de quem os vizinhos gostavam tanto e nunca pensaram que poderiam matar a avó e o resto da família à facada, e ou recorro à tecla fast forward ou espero calmamente que chegue o Jornal 2, mais contido.
Um dia destes, enquanto estava nessa espera, apareceu uma rapariga japonesa que me perguntou: se cortar uma das pontas da corda que prende uma roda de bicicleta que gira na vertical, a roda a) fica a rodar na vertical; b) fica a rodar na horizontal; c) fica a rodar com uma inclinação de 45 graus? A pergunta era mais ou menos assim, estou a citar de cor. Era um episódio de uma série de divulgação de ciência, tão bem feita que até irrita.

Depois lá vem o jornal, ok, e fico a saber mais sobre o que me interessa sem me irritar e ainda acontece ouvir opiniões interessantes. E a seguir não há meio de arranjarem uma série que não me apeteça ver. E como se ainda não fosse suficiente, aparecem os Diários da Grande Guerra ou um documentário sobre Rimbaud ou sobre a marca de meias Dim, ou um filme dos bons, ou mais isto e mais aquilo. E se tiver insónias ainda posso ver concertos que tive pena de perder.

Mas vamos ao que interessa, que o momento não é de descontrair nem de fazer crítica de televisão: os acórdãos trogloditas, nunca por de mais arrasados, não dão descanso. Sabe-se agora que as versões das Mil e Uma Noites que nos têm feito chegar não são fiáveis. Saiu o primeiro volume de uma nova tradução, a partir "das mais antigas fontes árabes"e, lá está, afinal a coisa foi toda desvirtuada. Nem estou a falar das versões à la Walt Disney, é mesmo dos livros feitos a partir de uma versão francesa fantasiosa.

Citar a Bíblia, ou por analogia, o Corão, para adaptar os ensinamentos e parábolas à vontade do freguês é um embuste tosco e definitivamente muito mais gravoso do que a mistificação de um texto. Acredito que tenha sido em total consciência que o tal juiz escreveu o documento sobre uma mulher que ele caracteriza como adúltera e sobre a qual dois homens - o marido e o outro - caíram em conjunto, e em conluio, com uma arma sofisticadíssima, paus com pregos. Admito que ele tenha a certeza do que defende e que esteja perplexo com o que desencadeou. Mas ele é juiz, não é líder espiritual nem guru de uma seita religiosa.

Já houve muitas opiniões sobre este caso, petições, posts, protestos, uma indignação generalizada. Só se perdem as que caem no chão. E já houve quem recordasse Maria Madalena, acusada de adultério, que até na interpretação do catecismo retrógrado que me ensinaram em miúda era perdoada por Jesus: "Quem nunca pecou que atire a primeira pedra", frase que trago desde então como maneira de procurar o ponto de vista do outro, pôr-me no lugar de. Se se trata de pecado ou não, esse é um problema de consciência religiosa e não do Código Civil ou da Constituição da República Portuguesa. A opinião do juiz desembargador do Porto, Neto de Moura, não se afasta das interpretações extremistas da Sharia ou de outras versões de livros sagrados que têm servido ao longo da história, e nas últimas décadas bem o temos sentido, de pretexto para as maiores barbaridades.

Antes de desligar o computador, a resposta: a roda fica a girar na vertical, impassível, como se não lhe tivessem cortado um dos apoios. Mistérios da Física.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG