O ultraje seletivo

Dias depois de o The New York Times ter escancarado as janelas sobre o historial grotesco de assédio sexual do produtor Harvey Weinstein, a barbie loira da direita americana apareceu na Fox News a arrasar Hollywood. Tomi Lahren, que os The Young Turks chamam de "cheerleader do inferno", falou no seu tom anormalmente rápido, como se os pensamentos se gerassem primeiro na língua e só depois no cérebro. "Estão todos caladinhos", acusou, dizendo que as celebridades liberais de Hollywood e a esquerda política estavam a assobiar para o lado porque Weinstein doou mais de um milhão de dólares aos democratas na últimas décadas. Acusou-os de hipocrisia e cobardia no seu segmento "Final Thoughts", que passou a integrar a grelha da Fox News em setembro.

Os outros comentadores do canal saltaram em cima da história como creme em bola-de-berlim. Sean Hannity disse que os americanos estão a ser vitimizados pela hipocrisia da cultura liberal e teve a santa lata de dizer que "todos sabemos que se fosse um conservador na mesma situação os liberais de Hollywood estariam enraivecidos".

O que é de abrir a boca em espasmos perante este e outros comentários que desfilaram na Fox News nos últimos dias é que eles são pura fantasia. Não se fala de outra coisa em Los Angeles. No café, na mercearia Trader Joe"s, na rádio NPR, no 7Eleven, nos jornais. Dezenas de celebridades vieram a público com as suas histórias, condenando a misoginia que grassa em Hollywood. A Academia expulsou Weinstein, uma medida sem precedentes em 90 anos de história (a única outra expulsão aconteceu por causa da violação de regras sobre a partilha de filmes em cassetes). A produtora The Weinstein Company, que cofundou, demitiu-o e está posta à venda. A Amazon cortou laços com a empresa. A série que Robert de Niro e Julianne Moore estavam a produzir com eles foi cancelada. Políticos de todos os lados condenaram o milionário. Todos os late night shows falaram profusamente sobre o caso. De que é a Fox News está a falar? De que silêncio está a falar?

É ainda mais inconcebível esta desonestidade intelectual quando a própria Fox foi abalada por escândalo atrás de escândalo de assédio sexual pelos mais altos quadros e pagou milhões para os encobrir. Sean Hannity foi um dos que defenderam Roger Ailes, que acabou por se demitir do cargo de CEO da Fox News após se tornar incomportável o seu historial de processos por assédio. Hannity teve Bill O"Reilly, que foi despedido por causas dos processos de assédio, no seu programa há duas semanas.

Mas falemos do elefante na sala: a Fox defendeu Donald Trump sem apelo nem agravo de todas as acusações de assédio que lhe foram feitas, mesmo após ser conhecida a gravação secreta do programa Access Hollywood - em que o agora presidente admitia agarrar mulheres pela vagina sem consentimento. Como é que se produz este ultraje seletivo das cabeças falantes da Fox (e de parte da direita americana), que desculpa comportamentos grotescos de homens na sua ala política e brada aos céus batendo no peito quando isso acontece do outro lado? É de uma sujeira intelectual que não surpreende, mas incomoda. Tomi Lahren, que "odeia" celebridades tanto quanto quer tornar-se uma, mudou-se de Dallas, Texas, para Los Angeles durante o verão. Ela está aqui. Como é que tem a cara de dizer que está toda a gente calada, quando não se fala de outra coisa?

Estes comentadores teriam muito mais credibilidade se apontassem para a hipocrisia geral de Hollywood no que toca ao tratamento das mulheres. Weinstein era um dos produtores mais poderosos de Hollywood até esta notícia explosiva do The New York Times, que se limitou a expor algo que se sabia oficiosamente por estas bandas. Courtney Love, a cantora infame que foi casada com Kurt Cobain, tinha avisado sobre as táticas sujas de Weinstein em 2005. Muitas outras mulheres falaram ao longo dos anos. Seth McFarlane fez uma piada negra sobre o milionário nos Óscares da Academia em 2013. Tina Fey deslizou uma referência aos avanços indesejados de Weinstein na série 30 Rock. Há outros exemplos. Sabia-se e encobria--se. O facto de isto se ter tornado um escândalo agora é criticável: se o magnata tivesse sido denunciado e despedido antes, tinha-se evitado mais anos de abuso. E tinha-se enviado uma mensagem forte aos outros magnatas de Hollywood que se comportam como trogloditas porque nunca enfrentaram consequências.

Suspeito de que o que aconteceu agora com Weinstein está diretamente ligado à eleição de Donald Trump. Há um ambiente de fervura que transbordou no tacho, uma raiva incontida, uma coragem que antes não existia. Talvez tenha sido necessário dar dois passos atrás para preparar o próximo salto.

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